quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Carta para a Petra

 Começo a escrever este relato motivado por uma ânsia de desculpar-me com minha pequena Petra. Desculpa-me querida por não ter sido suficientemente firme, junto com sua mãe, na resolução prévia de como seria seu parto. Tínhamos a intenção de recebê-la no conforto de nosso lar, sob os cuidados de mãos carinhosas e preparadas e de um ambiente acolhedor. Mas entenda que muitos fatores contribuíram para que tal idéia não fosse levada a cabo: estávamos sem casa até faz pouco tempo; a situação financeira pouco favorecida de família nova não nos ajudou a definir concretamente, e a tempo, pela ajuda de uma autêntica parteira e de uma  Doula; a mamãe estava ótima, confiante e preparada para sua chegada (e já conhecedora na prática de seu próprio poder, devido ao parto vaginal de sua irmã Pri, há nove anos atrás);  o papai se sentia seguro, pois já tem um pouco de experiência em partos humanizados (inclusive no maravilhoso parto domiciliar de sua irmã Adara) e sabe como fazer bom uso dos ensinamentos milenares da Medicina Chinesa para o entendimento dos mecanismos infalíveis da natureza, como a mágica fisiológica das sábias etapas do nascimento, e de como apoiar ditos processos; e, para finalizar as desculpas, a mamãe já tinha seu Plano de Saúde (ainda insisto que deveria se chamar "Plano de doença", pelo caráter mercantilista e desprovido da verdadeira intenção de favorecer o entendimento das pessoas sobre as influências globais que afetam suas vidas - mas isso é assunto para outra conversa, minha querida filha, recém chegada a esse mundo em falência...), o qual nos "presenteava" com um dos melhores hospitais de Brasília e com seus profissionais duramente moldados em anos de estudo técnico e alienado.

Vamos aos fatos, para que entendas os motivos de minha angústia e vontade de fazer chegar a você, e a todas as pessoas que esperam por partos verdadeiros, nossa vivência recente:

Sua mãe teve uma gestação normal, sem problemas maiores (apenas os esperados nesse momento de adaptação e transformação fisiológica intensa). Estávamos assistidos pela mesma obstetra que acompanhou o primeiro parto (e a confiança nela sempre foi enorme, principalmente por existir um respeito e empatia mútuos) e seguíamos firmes na intenção de tê-la como médica no parto. Nesse meio tempo, sua mãe começou a pesquisar mais e mais sobre o Parto Humanizado (incentivada por mim e por sua natural vontade de viver plenamente a experiência do parto), a ver vídeos, ler artigos e relatos, a entrar em Grupos de Compartilhamento, etc. Começou a ver e a se emocionar com partos domiciliares, a entender seus riscos (mínimos - ainda que os Status Quo os supervalorizem) e perceber suas grandiosas vantagens. A partir dessas incursões, começamos a conversar sobre a possibilidade de um parto em casa e um pequeno detalhe nos distanciava dessa possibilidade: não tínhamos, ainda, uma casa! Então seguimos com o Plano original: parto hospitalar, normal, talvez com analgesia (como tinha sido o primeiro parto de sua linda mamãe). Fui conhecer a Doutora e me pareceu uma pessoa acessível e tolerante, mas excessivamente "médica".

 (abro aqui um parêntese, minha adorável menininha, e o transformo em um parágrafo, para explicar brevemente o porquê da transmutação desse substantivo em adjetivo: falo de profissionais, com todo o respeito que merecem, formados na racionalidade médica convencional, firmemente apoiados em um formato intervencionista  e tecnocrata, com um corpo teórico e explicações forjados em laboratórios e com uma terminologia que pretende ser considerada a única versão da verdade, e que vislumbra os complexos processos humanos valorizando somente aspectos bioquímicos - o que pode ser genial e realmente eficaz para algumas "'Áreas" médicas, mas que vem se demonstrando realmente pobre e estéril quando falamos de cuidado sistêmico e de saúde, e não somente de doenças, essas "entidades" que vêm sendo friamente nomeadas nos "vademecuns", sincronicamente com o aparecimento de "remédios milagrosos" de grandes corporações farmacêuticas).

E não pretendo com essa afirmação desprezar essa Classe, ou qualquer outra que se apóia nessa mesma racionalidade; pelo contrário. Inclusive valorizo seus avanços e reconheço sua validade. Mas também creio firmemente, talvez por meu passado como estudante de Medicina descrente, talvez por minha formação em Antropologia, talvez por minha formação em Medicina Chinesa, ou pela soma das anteriores (ou ainda por simplesmente ser um cidadão com um pouco de discernimento), que esse não pode, e não deve, ser o único formato de explicação sobre o mundo e sobre a vida. E creio, especialmente na órbita da gravidez e do parto, que o desenho biomédico atual, pautado na binômio saúde- doença, pouco tem a acrescentar para a grande maioria das gestantes. E, no fundo, creio mesmo que o formato obstétrico atual gera mais problemas que soluções, em vários níveis (da mãe, do bebê, da família, dos hospitais, das comunidades, do sistema tecnocrático atual, etc.). E é justamente sobre isso, minha recém-chegada terráquea, que gostaria de falar com você nessa carta. Gostaria que ficasse claro pra você que não escrevo esta carta para queixar-me de um médico, de um Hospital ou de qualquer outra coisa. Realmente escrevo esta carta para desculpar-me, com você e, principalmente, comigo mesmo, por não ter seguido fielmente meu coração.

Voltemos à obstetra. Como disse, nossa confiança nela era inabalável (e ainda segue) mas sua mamãe começou a ver outras versões dos fatos. Começou a entender que as intervenções, por mínimas que fossem, poderiam desencadear outras e outras e outras....... Começou a ver que, talvez, a dor do parto fosse algo possível e que, como sempre desconfiara, estava dentro do desenho perfeito da natureza. Começou a questionar a necessidade de tantas intervenções, a analgesia, a episiotomia, o espaço do hospital e, até mesmo, o papel da equipe médica convencional. E ela, como eu disse anteriormente, era médica convencional, e “fã de analgesia”, como nos relatou. Foi nesse momento que sua mamãe pensou: “se não podemos pagar uma Parteira e uma doula para que nos ajudem em casa, também não conseguirei pagar por uma médica, por melhor que seja, que intervenha no Hospital”. E foi assim que decidimos deixar nossa médica e confiar na gente mesmo e entregar o resto pro Plano de Saúde, com seu Hospital e sua equipe. Aqui começou nossa grande saga.

Adianto alguns passos no relato para que você se acalme, menina Petra: sua mãe teve um parto normal, sem estímulos artificiais, sem analgesia, assistida pelo papai o tempo todo, recebendo as devidas massagens, os devidos estímulos naturais, sem episiotomia .... você saiu perfeita, forte, com ânsia de viver, de mamar..... sua mãe já está totalmente recomposta, passados dois dias do parto.....enfim, o balanço geral é maravilhoso.............. apesar da equipe médica e dos procedimentos hospitales. Sim, minha querida, é triste, mas a intervenção dos profissionais em assistência ao parto beira o catastrófico. Despreparados para assistir, treinados para intervir..... Desconhecedores dos mais básicos preceitos de parto natural, quanto menos do parto humanizado. Mas como já falei antes, não quero aqui simplesmente criticar o despreparo da medicina oficial, tampouco de seus profissionais – esse já é conhecido de todos que se abriram para os nobres preceitos da ciência da natureza. Esse despreparo está atrelado a toda à racionalidade médica contemporânea, excessivamente controladora e intervencionista. Ótima para algumas situações graves, de vida ou morte. Horrível para cuidar das pessoas e estimular a poder de cura intrínseco de cada um. Irrepreensível quando falamos de grandes cirurgias e de grandes estudos científicos financiados pela máquina das grandes corporações. Desprezível sim, quando chamada a entender e respeitar processos fisiológicos naturais e apoiá-los ....

E foi exatamente pelo dito anteriormente que decidimos ficar em casa no dia do trabalho de parto (sim, já tínhamos achado uma casa para chamar de lar no último mês e estávamos cada vez mais tentados a parir por aqui mesmo... mas, a esta altura, não tínhamos uma parteira, nem uma doula, mas tínhamos a gente mesmo....). E assim o fizemos. Dia 19 de janeiro, ao meio dia, a barriga começou a ficar estranha. As contrações começaram a estar mais presentes e sua mamãe, em dado momento, me confidenciou, com os olhos brilhando: “acho que começamos....” . É, ninguém melhor que ela para lançar esta afirmativa.... Já estava tudo pronto para receber você, nossa pequena dádiva, e o tempo corria macio. No avanço do dia e na chegada da noite as contrações se intensificaram, mas nada fora do normal.... a mamãe estava ótima, disposta, com pouca dor, alimentando-se, caminhando, vendo televisão, ficando abraçadinha comigo (engraçado Petra, mas você sabia que comprovaram – e lá isso precisa de comprovação! - que as carícias entre os pais estimulam o trabalho de parto, fortalecem o útero, facilitam a expulsão do bebê, etc?). Nesta altura, as contrações já apareciam a cada 3 minutos e ficavam apertando você prá baixo durante 1 minuto inteiro..... e você lá, de cabeça, abrindo a pelve da mamãe, lentamente.......Pois é, a coisa ia mesmo tão bem que decidimos dar uma deitadinha para descansar, já que o parto poderia ser longo (sua irmã mais velha já tinha ido dormir com a vovó e estávamos sozinhos, só te esperando).

Mas as três da madruga a coisa apertou..... contrações fortes, fortíssimas, quase ininterruptas..... falei prá sua mãe: ela tá nascendo.... vamos pro hospital? (claro, havíamos decidido ficar até não agüentar mais, para evitar problemas no hospital, e o momento havia chegado...). Lá fomos nós. Eu disse prá mamãe: querida, a dilatação já deve estar avançada e realmente acho que a baixinha já está saindo..... mas lembre-se, a partir de agora, você será totalmente guiada pela natureza que há em você, você é um bicho, um lindo bicho fêmea dando a luz.........quando ela coroar, e falta pouco, entregue-se totalmente, não tenha pressa, ela vai sair logo logo, quando esteja tudo adequado, a pelve aberta, o canal dilatado e bem irrigado, você pronta para abrir-se totalmente..... mas ela já estava em transe.

Chegamos ao hospital em 10 minutos... e ela parindo. A primeira burocracia à frente, ela virando bicho na sala de espera, eu pegando papéis, certidões, carteirinhas, o escambau. Atendente fria como a luz do hospital. O ar-condicionado marcava a temperatura, 18 graus. Passamos para a consulta com a médica plantonista. Toque frio como o ambiente, “sete centímetros de dilatação”, falou a médica em tom glacial, enquanto sua mãe já se esgoelava. Você pedindo passagem...... Mais burocracias e chegamos ao centro obstétrico (frio!!!!). Neste momento a mamãe já urrava e me olhava nos olhos e eu massageava os pontinhos pertinentes e estimulava as agulhinhas na orelha, ela apertava minha mão e agüentava.... o médico não chegava e estávamos só os dois e nos olhávamos e era você que víamos....... e realmente você apareceu...sua cabecinha já coroava em baixo e estávamos só os três.

E foi justo nesse momento que chegou o médico, e chegou chegando... e vieram as enfermeiras, não sei quantas, num verdadeiro baile de máscaras, e aí começou nosso martírio. Aí começou a ação do despreparo para receber de maneira humana e natural uma criança. Começou a desconfiança no poder da mãe, a única que não deveria, jamais, ser menosprezada. Veio, nesse momento, a frieza de profissionais prontos para intervir, como o fazem em todos os partos. E chegaram já prontos para cortá-la (quase dizendo “somos nós que fazemos o parto”) e tive que impedir que cortassem o sexo de sua mãe (e eles com a desculpa, ou o discurso já gasto pela voz machista da formação médica, de que fariam a episiotomia para ajudar na saída, ou para evitar que cortasse a vagina com a pressão do bebê).

Mas também veio à tona a loba. Veio à luz uma mulher que já estava preparada para parir e dar à luz a uma criança de maneira consciente e digna. E essa loba, sua mãe, atacou vorazmente o médico, quando este, do alto de sua sabedoria mecânica, e total incapacidade de somente assistir sua saída, enfiou brutalmente as mãos onde nunca, jamais, deveria enfiar..... e sua mãe lhe mostrou todas as garras e lhe golpeou algumas vezes e bradou, “tire a mão tire a mão”, como se falasse a um intruso e eu, seu pai, olhava nos olhos de sua mãe e lhe dizia que Petra já havia chegado, ao mesmo tempo em que falava, “Doutor, tire a mão daí, não há pressa, ela já chegou, a saída é uma questão de tempo”. E de outro lado, uma mascarada dizia ignorantemente, “ela tem que sair, está sofrendo”.... está sofrendo? Estará sofrendo por escutar tanta besteira, por ter que se sujeitar a tamanho despreparo... e a néscia ainda continuava, dirigindo-se à parturiente, sua mãe, “não grite, não grite” e “faça mais força, a criança está sofrendo”..... meu deus, não é possível que isto esteja acontecendo, pensava eu, tudo ótimo, tudo indo bem, e agora tenho que proteger minha mulher e minha filha desses despreparados (mas veja bem minha filha, falo isto pra você, e muitos podem estar lendo isso e pensando que estou desrespeitando os médicos e os profissionais da saúde, e que estou sendo exagerado, mas não, realmente creio que não os desrespeito mais do que nos desrespeitaram, creio que, talvez, façam muito bem partos cirúrgicos e que saibam transformar a parturiente em doente como ninguém, mas, realmente, não entendem nada de auxílio e atenção ao parto normal, humanizado e natural).

O pior mesmo veio quando você saiu, minha filha (logo nesse momento mágico em que você veio à luz....). Estes seres te pegaram e te chacoalharam, e havia uma luz desconfortável, e uma temperatura pouco apropriada, e eles não queriam esperar para cortar seu cordão, não queriam deixá-lo parar de bater..... por quê? E por que não te colocaram imediatamente no seio de sua mãe, minha filha, apesar de nossa insistência? E por que razão, meu deus, preciso entender, não te deixaram repousar conosco, calmamente, assim que chegastes ao mundo? É mesmo por puro protocolo que te retiraram de nossos braços, seus pais, e te levaram e eu tive que ir atrás para limitar a ação nefasta das infelizes enfermeiras? E assim deixar sua mãe (não queria deixá-la depois do parto, não queira...) ali, recém-parida, sem poder ver a carinha de sua filha que esteve durante 40 semanas em seu ventre? E, ainda assim, não consegui evitar que enfiassem uma cânula de uns 10 centímetros em seu narizinho minúsculo e chegassem até seu pulmãozinho.... me desculpe, me desculpe.....

Minha pequena, realmente escrevo tudo isso com muita emoção. Não posso deixar de pensar quão melhor para todos seria recebê-la no conforto de casa, pelas mãos de mulheres preparadas (sim, acho que mulheres devem auxiliar no parto, mulheres... e homens com seu lado materno aguçado). E sem todo o terrorismo da medicina oficial e de seus agentes. Sim, fomos vítimas, como o são todos que se sujeitam a um parto hospitalar, de ameaças sutis ou diretas, constantemente: “o bebê é muito grande, tem que fazer a episiotomia”, “uma circular de cordão, cesariana...” , “tem que tomar a vitamina K senão vai ter hemorragia”, “tem que tomar analgesia senão não agüenta a dor....” e por aí vai o arsenal de sentenças espalhando o medo, e semeando pais encurralados.

Mas aqui estou, minha querida, sobrevivendo a tudo isso e te contando, e a todos que queiram ouvir: você teve um parto digno, pela força de sua mãe, e com o amparo de seu pai, apesar da perversidade do formato convencional de ver as coisas. E gostaria sim que esta estória servisse de inspiração, como tantos outros relatos, para os pais que pensam em resgatar o poder do protagonismo nesse momento tão especial.

Um beijo carinhoso de seu pai


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