sexta-feira, 23 de outubro de 2009

a escuta

http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&videoid=46327099

A escuta nas racionalidades médicas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


código brasileiro de ocupações

       
                      Acupuntura - CBO



O Ministério do Trabalho e do Emprego divulga a nova Classificação Brasileira de Ocupações, que altera e substitui a divulgada em 1994. O grande diferencial desta CBO é a efetiva participação dos comitês de profissionais da área de acupuntura na elaboração da classificação. O MTE partiu da premissa que a melhor descrição é aquela realizada por profissionais que realmente atuam em cada área. A nova e mais completa CBO da profissão de acupunturista é a 3221-05. Saiba todos os detalhes abaixo nos dados obtidos diretamente no Ministério do Trabalho e do Emprego. 
Veja também o antigo código, número 0-79.15 de 1994, e compare. Classificação 0-79.15



3221-05 -

Acupunturista - Acupuntor, Fitoterapeuta, Técnico corporal em medicina tradicional chinesa, Técnico em acupuntura, Terapeuta naturalista, Terapeuta oriental


O profissional acupunturista realiza prognósticos energéticos por meio de métodos da medicina tradicional chinesa para harmonização energética, fisiológica e psico-orgânica; aplicam estímulos físico-químicos e técnicas corporais para tratamento de moléstias psico-neuro-funcionais e energéticas (acupunturista).


Condições gerais de exercício



Atuam na área da saúde e serviços sociais. São autônomos, trabalhando por conta própria, de forma individual, sem supervisão. Executam suas funções em ambiente fechado e em horário diurno.



Formação e experiência



O exercício dessas ocupações requer curso técnico de nível médio na área de atuação.



A - PROGNOSTICAR DISFUNÇÕES

1
Realizar anamnese
2
Avaliar sinais e sintomas
3
Analisar exames
4
Tomar medidas antropométricas e energéticas
5
Avaliar micro-sistemas do paciente
6
Avaliar estado bioenergético do paciente
7
Analisar biomecânica
8
Avaliar tecidos moles
9
Avaliar sistema muscular (força, temperatura e tônus)
10
Avaliar sistemas neuro-músculo-esquelético
11
Avaliar sistemas cárdio-respiratório, circulatório, digestivo, gênito-urinário e emocional
12
Solicitar exames complementares
13
Encaminhar paciente à outros profissionais



B - TRATAR PACIENTE

1
Planejar procedimentos
2
Preparar paciente
3
Efetuar assepsia do local
4
Selecionar pontos de acupuntura
5
Aplicar agulhas e moxabustão
6
Tonificar energia
7
Escoar estagnação energética (sedar)
8
Desobstruir circulação
9
Desintoxicar organismo
10
Corrigir desequilíbrios energético-psico-orgânicos, fisiológicos, bio-químicos, enzimáticos e hormonais
11
Aplicar emolientes e anestésicos
12
Equilibrar tônus muscular
13
Normalizar nervos comprimidos ou irritados (fluxo nervoso)
14
Retirar lâmina ungueal
15
Efetuar curativos
16
Normalizar movimentos articulares (ativo, passivo e jogo articular)
17
Massagear pés
18
Palpar estruturas articulares, musculares e ósseas
19
Realizar manipulações miofaciais (toque, massagem e alongamento)
20
Estimular movimento crâneo-sacral
21
Normalizar movimentos articulares (ativo, passivo e jogo articular)
22
Atender emergências



C - ADMINISTRAR CLÍNICA

1
Agendar consultas
2
Cadastrar cliente
3
Estabelecer contrato com cliente
4
Controlar estoque
5
Treinar pessoal
6
Administrar finanças
7
Providenciar manutenção da clínica
8
Divulgar serviços



D - TRABALHAR COM BIOSSEGURANÇA

1
Higienizar local de trabalho
2
Usar epi
3
Esterilizar instrumental
4
Trabalhar com ergonomia
5
Armazenar produtos químicos e medicamentos
6
Descartar material e medicamento com validade vencida
7
Acondicionar materiais pérfuro-cortantes para descarte
8
Acondicionar lixo contaminado para incineração



E - COMUNICAR-SE

1
Ouvir paciente
2
Explicar técnicas e procedimentos
3
Informar paciente sobre sua condição
4
Orientar sobre postura estática e dinâmica
5
Orientar paciente sobre medidas preventivas
6
Prescrever exercícios
7
Recomendar uso de medicamentos ao paciente
8
Indicar fitoterápicos
9
Registrar informações técnicas
10
Produzir relatórios
11
Ministrar aulas



Competências pessoais

1
Agir com bom senso
2
Trabalhar com ética
3
Cuidar da higiene e aparência pessoal
4
Demonstrar percepção táctil e/ou visual
5
Ficar à disposição do paciente
6
Cuidar do relacionamento inter-pessoal
7
Aprimorar paciência
8
Demonstrar coordenação motora fina
9
Manipular materiais, produtos químicos e medicamentos para uso no atendimento
10
Aplicar digitopuntura e eletro estimulação (cromo-, laser-, magneto-, fotopuntura, etc)
11
Utilizar métodos complementares (fitoterapia, floral, exercícios energéticos, tuiná, massagens)
12
Atualizar-se profissionalmente




Recursos de trabalho ordenar resultado


   Lavatório

   Produtos químicos

   Posturômetro

   Algodão e álcool

   Moxas

   Palmilhas e calços

   Aparelhos elétricos para estimulação

* Ventosas

   Martelo de sete pontas

   Martelo de reflexos

   Magnetos

   Cadeira podológica

   Micropore e esparadrapo

   Lupa

   Pinças, bandejas, tesouras

* Epi - equipamento de proteção individual

   Microcâmera

   Aparelho de alta freqüência

   Alicates e tesouras

* Negatoscópio

* Bisturi e lâminas

   Ataduras gessadas

   Fibras, gesso, silicone e eva

   Ativador (martelete)

* Agulhas de acupuntura

   Compressas e bolsas térmicas

   Avental, lençol e papel descartável

   Maca

   Suportes de posicionamento

   Carretilha

   Luvas de procedimento

* Balança

   Brocas, fresas, lixas

   Materiais ortodônticos

   Gase, algodão

* Micromotor e motor de rotação

* Estufa e autoclave

   Bandagem

* Medicamentos, fitoterápicos e cataplasmas

   Aparelho de laser



Especialistas consultados


Aparecida Maria Bombonato

Carlos Braguini Júnior

Celso Luiz de Freitas

Eni Lima

Jayme Roberto Justino

Joge Carlos Ribeiro da Rocha Mollica

José Paulo Teixeira dos Santos

Júlio Ramos Avelar

Manoel Matheus de Souza

Marco Aurélio Pires

Orlando Madella Júnior

Orley Dulcetti Júnior

Paulo Cesar Varanda




Instituições consultadas


Centro de Acupuntura e Terapias Integradas Neiking

Clínica Matheus de Souza

Delta Sistemas de Saúde

Huang-ti Inst. Acup. Méd. Nat. Integradas

Ibraqui - Instituto Brasileiro de Quiropraxia

Instituto Brasileiro de Acupuntura e Homeopatia (IBRAHO)

Instituto Brasileiro de Medicina Chinesa e Terapia

Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-DR-SP)

Salus Instituto de Saúde Holística Ltda.




Instituição conveniada responsável

 FIPE

terça-feira, 6 de outubro de 2009


Mestres do Caminho

retirado do blog:  http://china-antiga-didatica.blogspot.com/
ver também: http://orientalismo.blogspot.com/


Laozi e Zhuangzi
Mestres do Caminho
André Bueno
Universidade Gama Filho, Brasil
Em meio ao caos que se instalava no século VI a.C., a proposta do misterioso mestre Laozi (contemporâneo de Confúcio) surgiu com um elemento bastante inovador nas formas de pensar chinesas: baseando-se num distanciamento claro das decadentes instituições políticas dos Zhou, este sábio defendia, no seu Daodejing (Tratado da Virtude e do Caminho) um retorno à natureza primordial do ser, sendo esta a verdadeira busca para uma real salvação. Os tempos ancestrais representavam para Laozi uma época de paz, de desapego, que fora obtido graças à harmonização natural dos seres com o meio; mas, no intuito de fazer prevalecer esta paz, apareceram os sábios, que instituíram leis, promulgaram regras, e lançaram a desconfiança entre as pessoas, ensejando os desejos egoístas de sobrevivência e acúmulo material.
Por causa disso, a sociedade perdeu o Dao (Tao), o caminho, conceito esse já existente na mentalidade chinesa, mas que os daoístas (ou taoístas) iriam buscar desenvolver ao máximo. O Dao não poderia, em essência, ser explicado. Parece tratar-se de uma fórmula de harmonia com a natureza, onde o ser descobriria sua posição atuante no ciclo cósmico. Isso exigia que a pessoa comum, portanto, se desprendesse das coisas mundanas que a retinham no círculo vicioso das convenções sociais, para descobrir, no seu íntimo, o ritmo das relações existentes entre seu corpo, seu espírito e a natureza.


Por isso mesmo, a descrição lingüística do Dao não era possível, para os daoístas, por se tratar de uma experiência "transcendente", desligada das sensações mundanas que governam os seres comuns. A matéria e o espírito seriam, na verdade, desdobramentos de uma única fonte primordial, inominável, que provinha da entidade geradora do cosmo, o Vazio (DDJ, 11). O Vazio geraria o princípio (Li, o um); dele, estabelece-se a dicotomia complementar fomentadora de todos os fenômenos, os princípios opostos, o Yin e o Yang. Da fusão de ambos nasce o Três, o filho, o manancial das dez mil coisas (expressão chinesa para o universo) (DDJ, 42). Este fenômeno da criação das energias seria o grande ciclo no qual a natureza se encerra e se reproduz, e para voltar a se integrar nessa realidade o ser precisaria buscar, dentro de seu próprio espírito, a noção de equilíbrio e interação que se chamaria Dao. Ele não poderia dispensar a matéria, do qual faz parte: mas pode tentar apreende-la sem desejo, sem noção de posse, o que permite então a livre expressão das propriedades das coisas (DDJ, 48, 49). Esta isenção do desejo, que permitiria o livre fluir do conhecimento é que fomenta o conceito da ação-isenta (wu wei) (DDJ, 63). Agir é, pois, atuar tentando conciliar os opostos e, ao mesmo tempo, empregar a energia adequada ao momento; é uma ação isenta de um fim específico, baseada pura e simplesmente na sua execução e vivência (tal como, num exemplo clássico, o ato de meditar).
Esta clivagem taoísta é bastante interessante: quantas vezes não deixamos de enxergar as coisas, como elas são, porque nelas projetamos nossas ânsias e desejos? É exatamente por isso que Laozi propunha uma aproximação isenta, sem o que só seríamos capazes de observar a forma externa das mesmas, e nelas continuaríamos a sobrepor nossas concepções próprias de mundo que não seriam nada mais, nada menos, do que uma deformação da realidade proposta pela cultura.
De fato, a cultura aparece aí, para os daoístas, como um filtro deformador da realidade natural, uma construção até necessária para que o homem pudesse interagir com o meio; mas, a partir do momento que a mesma se torna um sistema de domínio sobre a natureza, ela começa então a se degradar e corromper, pois passa a ser uma construção irreal (e ideal) sobre a verdade cósmica. Na ausência de harmonia entre estes princípios cósmicos ocorrem, então, os conflitos entre os países, os povos, as famílias, cada qual não percebendo a presença dos atributos universais presentes em suas naturezas (DDJ, 65).
Mas essa "individualidade natural" do ser seria de fácil acesso? Na verdade sim, e não (DDJ, 70). Ela dependeria do esforço individual de cada um, o que a torna um caminho tortuoso e complicado, mas que ao mesmo tempo está aberto diante de nós, já que fazemos parte desta natureza e não podemos dela nos separar. Este seria o Portal do conhecimento, dos mistérios, presente na entrada do Dao. (DDJ, 1) 


Tais concepções conclamavam as pessoas ao estudo íntimo e a meditação profunda do papel do ser humano no seu meio. Laozi foi um tanto hermético nos seus discursos sobre o resgate da harmonia primordial, mas ao mesmo tempo foi original e autêntico, quando propôs que a real liberdade do ser não poderia ser atingida pela prática de uma cultura que trazia dentro de si o cerne da degradação. Toda e qualquer construção humana que se distanciasse de uma base natural tenderia a gerar perturbação, já que ela provocaria o surgimento de novas ânsias, duvidas, conflitos e perigos que jogariam os seres uns contra os outros. A abordagem do Caminho deveria ser feita, com segurança, através da flexibilidade do pensamento, da ação contida e do coração aberto aos movimentos do mundo.
O primeiro verso do Daodejing nos diz respeito à necessidade que os seres humanos teriam de reencontrar sua posição na natureza cósmica. Seria um engano pensarmos que somos donos de algo, já que esta consciência ideológica deriva de uma noção social, mas ela não esclarece, em si, o fato de que todos os seres nascem e morrem e apenas a natureza continua a existir. Assim sendo, nós pertencemos à natureza, e não o contrário. Laozi pensava, com isso, em chamar as pessoas à construção de uma sociedade mais harmônica, baseada na compreensão deste princípio, que nos induz a agir não de forma selvagem, mas que nos traz a consciência da transitoriedade das coisas e que, por isso mesmo, nos força à rever nossos desejos e angústias como coisas vãs, numa existência que não exige nada disso para assegurar nossa sobrevivência.
A precisão da proposta de Laozi nos faz pensar, em termos modernos, na questão da responsabilidade individual sobre o mundo. Em que medida nós assumimos um exame íntimo de nossas vidas e não criamos para elas mais necessidades do que realmente precisaríamos? A cultura, por muitas vezes, não nos induz ao excesso desmedido, criando anseios sobre coisas que seriam totalmente dispensáveis em nossas vidas, mediante um exame mais atento? Quando observamos as "comunidades primitivas", que durante um bom tempo conseguiram estabelecer um padrão de vida bastante significativo, pautado exclusivamente na harmonia com a natureza e o meio, podemos realmente assegurar que a evolução material seria o único caminho de desenvolvimento possível para a sociedade? E ainda, as construções tecnológicas, que se propõe a serem reprodutoras da vida humana, muitas vezes não ameaçam o meio ambiente, pondo em perigo, por conseguinte, a própria existência das sociedades mundiais? Se assim for, a descoberta dos "mistérios" que envolvem o caminho não seria, nada mais, nada menos, a proposta de criação duma sociedade onde seres conscientes fossem capazes de assegurar a vida comum através de uma relação mais equânime e adaptada à realidade do meio. O caminho, portanto, seria se deixar conduzir por este movimento natural e constante, sem conflitos, sem atritos, sem desperdícios (DDJ, 76, 77). Eis uma mensagem significativa que Zhuang zi, um dos principais seguidores da linha daoísta trabalharia, posteriormente, para tornar mais acessível ao público através de inúmeras parábolas, que veremos a seguir.
Zhuangzi e o daoísmo popular
Com Zhuangzi (IV a.C.), a escola daoísta recebeu a adição de um incrível contador de histórias, que tornou o Dao acessível aos leigos, deixou uma mensagem humanística profunda e surpreendeu a todos com sua sensibilidade, agudeza e humorismo.
O texto de Zhuangzi não era menos profundo de que o de Laozi; mas sua maior virtude, talvez, tenha sido a de tornar a idéia do dao menos hermética, mais legível e compreensível, ilustrando-a com parábolas instrutivas e, muitas vezes, divertidas. Se Confúcio era um apaixonado pela história tradicional, com seus discursos edificantes e diretos, Zhuangzi era um artesão de contos sutis e despojados. Ao defender o caminho proposto pelos daoístas, este autor questionou diversas vezes o senso comum, a ideologia e a cultura. Como afirma em um de seus contos:
"Se um homem dorme em um lugar úmido, resfria-se e morre. Mas e as enguias? Viver em cima de uma árvore é difícil, e esgota os nervos de qualquer um. Mas que me dizes dos macacos? Entre o homem, a enguia e o macaco, quem habita o lugar certo, absolutamente? Os seres humanos alimentam-se de carne, o gamo de erva, as centopéias de cobras, as corujas e corvos de ratos. Desses quatro, qual é o gosto certo, absolutamente? O macaco se une a macaca, o gamo à corça; as enguias unem-se aos peixes, enquanto os homens admiram Mao Qiang e Li Chin à vista dos quais os peixes mergulhariam, horrorizados, na profundidade das águas, as aves voariam alto no Céu e os gamos fugiriam correndo. Quem dirá, contudo, qual é o correto padrão de beleza? Na minha opinião, o padrão da virtude humana, e do positivo e negativo, é tão obscuro que é impossível realmente saber qual seja".








Vejamos a primeira fábula: quem pode saber o que é melhor, em absoluto? Quantas vezes alguém pode indicar um caminho, achando que é o melhor para o outro, desconhecendo-lhe por completo o íntimo? Zhuangzi não negava o valor da experiência humana, mas contestava sua abrangência e especificidade. O que os seres vivem, em geral, são construções ideológicas e culturais alheias aos impositivos do espírito (ZZ, 2), mas como se pode vivenciar esta mesma espiritualidade em meio as demandas da sociedade? Quem pode saber, realmente, o que é melhor pra nós, senão nós mesmos? Zhuangzi não era, porém, um defensor do egoísmo e da imaturidade. Para ele, as experiências humanas deveriam ser a base sobre qual nós observaríamos a vacuidade das causas e efeitos, e não uma muralha, construída pelas decepções, que fechariam nossa alma ao mundo. Em geral, o chamado "conhecimento da vida" seria, na visão deste pensador, nada mais do que um conjunto de amarguras e rancores que induzem as pessoas à sempre lutarem pelo que é transitório, o que dá prestígio, por aquilo que não é a definitiva realidade do ser. As sensações não podem servir para igualar, a todos, numa visão egocêntrica e pessimista do mundo: elas têm por fundamento, na verdade, mostrar às pessoas as diferenças que existem entre os seres da natureza. E isto não faz com que haja, necessariamente, uma hierarquia cósmica que determine a posição de cada um no universo; cada qual tem, de fato, seu lugar nos ciclos naturais, cada um com sua importância, ninguém melhor ou pior do que o outro.
É por isso que Zhuangzi recusou as honrarias de um bom cargo:
"Zhuangzi estava pescando no rio Pu, quando o príncipe de Zhu mandou dois altos funcionários convidá-lo para assumir o cargo de administrador do Estado Zhu. Zhuangzi continuou pescando e, indiferente, disse: "Ouvi falando que em Zhu há uma tartaruga sagrada que morreu há cerca de três mil anos. E que o príncipe guarda cuidadosamente essa tartaruga em um cofre no altar de seus ancestrais. Ora, para essa tartaruga seria melhor estar morta e ter os seus restos venerados, ou estar viva e arrastando a sua cauda na lama?""Seria melhor estar viva e arrastando a sua cauda na lama", responderam os dois altos funcionários. "Ide embora!", gritou Zhuangzi. "Eu também prefiro arrastar a minha cauda na lama".
Porque se deixar prender em obrigações matérias e transitórias, cujas preocupações cotidianas e monótonas nada tem haver com a realidade última do mundo (ZZ, 17)? Vivendo de pequenos trabalhos, ele conseguia dar de comer a sua família. Tinha o que precisava para seu sustento, então porque querer mais? Seria comodismo? Ou a negação daquilo que muitos querem, o Poder e o Prestígio?
A força impositiva, na visão daoísta, é efêmera e rápida, em contraposição a suavidade, que é durável e sutil. Assim também seriam o Poder e o Prestígio: hoje, um homem é soberano; e amanhã, escravo de outro rei. Somente aqueles que percebessem o caminho seriam capazes de compreender que todas essas coisas passam. A fome, sim, seria uma realidade; nascer, morrer, procriar, eis o que todos fazem, do mais alto político até o mais baixo popular. Disto Zhuangzi concluía que todas as disputas em torno de valores, posses, bens e posições nada mais eram do que construções humanas, pois todos, enfim, precisam do mesmo básico para viver. Afirmando uma idéia já proposta por Laozi, o segredo da vida consiste em desenvolver a capacidade de ser flexível e adaptável.
É por isso que Zhuangzi encerra brilhantemente sua vida retribuindo, à natureza, seu corpo (ZZ, 32). A mesma Mãe que dá, é a que tira. E, no entanto, como podemos achar que não fazemos parte dela, se somos entes perenes, já que no ciclo cósmico não há perdas, mas apenas manifestações da mesma matéria? Como podemos nos fazer mais ou menos importantes que outros, se somos feitos do mesmo princípio e se necessitamos das mesmas coisas? (ZZ, 7)
Zhuangzi é um apanágio sobre o preconceito e sobre o egoísmo. Não que Lao zi não tenha se pronunciado, e bem, sobre estas coisas, mas Zhuangzi explorou-as ao máximo, aproximando seu discurso das pessoas mais ignorantes e menos instruídas. A salvação estaria ao alcance de todos, e ela seria facilmente alcançada por aqueles que conseguissem de desprender dos grilhões materialistas do mundo para perceber, com naturalidade, a presença do caminho (Dao), da existência real do Ser.
Muito nos impressiona ver que, no século IV a.C., este autor já era capaz de discutir as diferenças sociais e materiais sob uma ótima humana, isenta de preconceitos, pautada unicamente numa crítica ao mundo, e não somente à sua cultura. Se nesta época já era possível realizar tal inferência, vemos que a criação de um conceito humanístico não é privilégio de nenhuma sociedade, mas de uma sabedoria universal, inerente a todos os povos.


André Bueno




Bibliografia
· DDJ = Daodejing (Tratado do Caminho e da Virtude, de Laozi)
· ZZ = Livro de Zhuangzi
· BLOFELD, J. Taoísmo. São Paulo: Cultrix, 1989.
· CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid: Bellaterra, 2003.
· COOPER, J. O Taoísmo. São Paulo: Cultrix, 1986.
· GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
· LAOZI. Daodejing. São Paulo: Hedra, 2002. trad. M.Sproviero
· PALMER, M. Elementos do Taoísmo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993.
· ZHUANGZI. Chuang Tzu. São Paulo: Cultrix, 2000. trad. S. Hamill e J. Seaton
· ZHUANGZI. Chuang Tzu. São Paulo: Cultrix, 1988. trad. B. Watson.


Adaptado do livro Dez Lições de Cultura Chinesa, de André Bueno (Ed. Tartaruga, 2000).




sexta-feira, 2 de outubro de 2009


racionalidades

Racionalidades Médicas
Medicina Ocidental Contemporânea
Medicina Homeopática
Medicina Tradicional Chinesa
Medicina Ayurvédica
Cosmologia
Física Newtoniana(Clássica) – Implícita
Cosmologia Ocidental Tradicional (Alquímica) e clássica (Newtoniana) – implícita
Cosmogonia Taoísta (geração do microcosmo a partir do macrocosmo)
Cosmogonia Védica (geração do microcosmo a partir do macrocosmo)
Doutrina Médica
Teoria da causalidade da doença e seu combate
Teoria da energia ou força vital e seu desequilíbrio nos sujeitos individuais
Teorias do Yin-Yang, das cinco fases, e seu equilíbrio (harmonia) nos sujeitos individuais
Teoria dos cinco elementos e das constituições humorais nos sujeitos individuais
Morfologia
Morfologia dos sistemas (macro e micro orgânico)
Organismo Material e força vital animadora
Teoria dos canais e colaterais; dos pontos de acupuntura; dos órgãos e vísceras
Teoria da densidade dos corpos; da constituição dos tecidos vitais; dos orgãos e dos sentidos
Fisiologia ou Dinâmica Vital
Fisiopatologia e fisiologia dos sistemas
Fisiologia energética implícita; Fisiologia dos sistemas; fisiopatologia do medicamento e do adoecimento
Fisiologia dos sopros vitais; dos Zang-Fu Dinâmica Yin/Yan No organismo e no ambiente
Fisiologia energética (Circulação do prana nos diversos "corpos" Equilíbrio dos Tridoshas
Sistema Diagnóstico
Semiologia: anamnese; exame físico e exames complementares
Semiologia: anamnese do desequilíbrio individual. Diagnóstico e remédio da enfermidade individual.
Semiologia: anamnese do desequilíbrio Yin/Yang Diagnóstico do desequilíbrio dos sujeitos
Semiologia: Anamnese do desequilíbrio dos "tridosha" Sistema de observação dos "oito pontos" Diagnóstico do desequilíbrio dos sujeitos
Sistema Terapêutico
Medicamentos, cirurgia, higiene
Medicamento, higiene
Higiene, exercícios (artes, meditação) Dietética; fitoterapia; massagens Acupuntura, moxabustão
Dietética Técnicas de eliminação e purificação Exercícios (Yoga, meditação) Massagens; Fitoterapia (vegetais, minerais e animais)



Fonte: LUZ, M. T. (2000). Medicina e Racionalidades Médicas: Estudo comparativo da Medicina Ocidental Contemporânea, Homeopática, Tradicional Chinesa e Ayurvédica. in Ciências sociais e saúde para o ensino médico. A. M. CANESQUI: São Paulo, HUCITEC/FAPESP.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

de panacéia mística à especialidade médica


                     Comprovação científica e eficácia terapêutica
    


 A visão da imprensa nos sugere a existência de um eixo explicativo para a crescente aceitação da acupuntura, onde esta transita entre a crendice e o charlatanismo, de um lado, e como portadora de um possível status científico, de outro. No entanto, as posições que a acupuntura vem alcançando ao longo deste eixo, embora exerçam uma importante influência, não parecem estar determinando sua crescente percepção como uma abordagem legítima face ao adoecimento. 
    
 Os resultados das pesquisas científicas mencionados nos jornais informam sobre a confirmação da ação da acupuntura sobre a sensação dolorosa, através de explicação em termos neurofisiológicos e bioquímicos. Mas isto representa apenas um início na tentativa de explicar cientificamente os mecanismos de ação da acupuntura. Ainda assim, as respostas produzidas pelo sistema nervoso de acordo com os diferentes pontos escolhidos permanecem um mistério para os pesquisadores. Tenta-se fazer acreditar que às conquistas no campo científico possam corresponder progressos na efetividade terapêutica da acupuntura, o que não é necessariamente verdadeiro. Parece razoável concluir que as novas vinculações institucionais com as ciências biomédicas nas uni-versidades são exibidas para persuadir a opinião pública e os legisladores, explorando assim mais ideológica que academicamente o prestígio da ciência. A aceitação da eficácia da acupuntura, mesmo em sua ação sobre a dor, vem ocorrendo, em larga medida, independentemente do progresso do conhecimento médico sobre os seus mecanismos de ação. A constatação de sua efetividade e eficácia, por parte de pacientes e terapeutas, tem sido, em nosso entendimento, o principal fator a motivar sua adoção e expansão nos serviços e nas instituições de atenção à saúde (...).

Trecho retirado do seguinte estudo: NASCIMENTO, M. C. do: De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(1): 99-113 mar.-jun. 1998.


link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701998000100005&lng=pt&nrm=iso#not8#not8


terça-feira, 29 de setembro de 2009

ponto de equilíbrio


Yin e Yang: o equilíbrio do movimento


Leonardo Boff

A tradição do Tao vê a história como um jogo dialético e complementar de dois princípios: yin e yang, forças subjacentes a todos os fenômenos humanos e cósmicos. Procurando luzes para entender e sair da crise global talvez este olhar holístico dos sábios orientais nos possa inspirar.
A figura de referência para representar estes dois princípios é a montanha. O lado norte, coberto pela sombra, é o yin, que em chinês quer dizer sombreamento e corresponde à dimensão Terra. Ele se expressa pelas qualidades da anima, do feminino nos homens e nas mulheres: o cuidado, a ternura, a acolhida, a cooperação, a intuição e a sensibilidade pelos mistérios da vida.
O yang significa a luminosidade do lado sul e corresponde à dimensão Céu. Ele ganha corpo no animus, as qualidades masculinas no homem e na mulher como o trabalho, a competição, o uso da força, a objetivação do mundo, a análise e a racionalidade discursiva e técnica.
A sabedoria milenar do Taoísmo ensina que estas duas forças devem ser balanceadas para que o caminhar das coisas se faça de forma, a um tempo, dinâmica e harmônica. Pode ocorrer que uma predomine sobre a outra, mas importa buscar, o tempo todo, o equilíbrio difícil entre elas.
O yin e o yang remetem a uma energia mais originária, um círculo que contem a ambos: o Shi.
O Shi é a energia cósmica que tudo sustenta, penetra e move A teologia yorubá e nagô, tão presentes na Bahia, ensina que essa energia é o Axé universal, com as mesmas funções do Shi.
Os cristãos falam do Spiritus Creator, ou do Sopro cósmico, que enche e dinamiza toda a criação.
Os modernos cosmólogos se referem à constante cosmológica que é Energia de fundo que produziu aquele minúsculo ponto que se inflacionou e depois explodiu – big bang – dando origem ao nosso universo.
Após esta incomensurável explosão, a Energia de fundo se desdobrou nas quatro forças fundamentais que atuam sempre juntas e que subjazem a todos os eventos – a energia gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e forte – para as quais não existe, na verdade, nenhuma teoria explicativa.
Nossa cultura ocidental, hoje globalizada, rompeu essa visão integradora e dinâmica. Ela enfatizou tanto o yang que tornou anêmico o yin. Por isso, permitiu que o racional recalcasse o emocional, que a ciência se inimizasse com a espiritualidade, que o poder negasse o carisma, que a concorrência prevalecesse sobre a cooperação e a exploração da natureza descurasse o cuidado e o respeito devidos.
Esse desequilíbrio originou o antropocentrismo, o patriarcalismo, a pobreza espiritual, a cultura materialista e predadora e a atual crise ecológica global.
Somente com a integração da força do yin, da anima, da logique du coeur (Pascal), do mundo dos valores, corrigindo a exacerbação do yang, do animus, do espírito de dominação, podemos proceder às correções necessárias e dar um novo rumo ao nosso projeto planetário.
Na tradição do cânon ocidental expressamos o mesmo fenômeno do yin e do yang referindo-nos a duas figuras mitológicas: Apolo e Dionísio.
A dimensão Apolo está no lugar da ordem, da razão, da disciplina, numa palavra da lei do dia sob a qual se rege a sociedade organizada. A dimensão Dionísio representa a liberdade face às leis, a coragem de violar interditos, a exaltação da alegria de viver e a inauguração do novo, numa palavra, a lei da noite, que é o momento em que as censuras caem e tudo fica gris e indefinido.
Atualmente vivemos uma conjuntura toda particular, marcada pelo excesso. Perdemos a coexistência do yin com o yang, de Apolo com Dionísio.
Se não encontrarmos um ponto de equilíbrio tudo pode acontecer, até um flagelo antropológico. Precisamos de uma loucura sábia que possibilite uma nova síntese entre esses dois pólos para reinventar um novo caminho que nos garanta o futuro.

Leonardo Boff é autor de Ética da vida: a nova centralidade, Record 2009.


Texto retirado do blog do Noblat: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/09/29/yin-yang-equilibrio-do-movimento-227526.asp

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

especialidades



Especialista em Acupuntura ou Acupunturista em especial?


Este artigo nasce da necessidade de prestar esclarecimentos à população interessada e de traçar novos caminhos de diálogo entre as categorias profissionais envolvidas nos processos de consolidação da Acupuntura - Medicina Tradicional Chinesa (MTC) - no Brasil.


Antes de entrarmos no mérito da discussão, creio oportuno dar uma sutil pincelada sobre alguns fatos importantes nesse campo controverso:


1. A MTC é uma Ciência Milenar ampla e profundamente documentada em extensa literatura e segue seu caminho em adaptação dinâmica no tempo-espaço (cruzando os milênios e adentrando no ocidente), pautada numa forma de pensamento (Taoísmo) que contempla a transformação contínua de todas as coisas (portanto, não é uma forma de tradicionalismo estanque, e sim uma ciência viva e em constante mutação);


2. “A Medicina Tradicional Chinesa caracteriza-se por um Sistema Médico Integral, originado há milhares de anos na China.” (trecho retirado da Portaria 971);


3. A MTC possui um corpo teórico-prático coeso de entendimento sobre os mecanismos da vida (fisiologia na MTC), de investigação sobre as causas das desarmonias e sobre a consolidação dos estados de desequilíbrio (fisiopatologia na MTC), de tratamentos eficazes desses estados desarmônicos e de prevenção dinâmica de problemas futuros (Acupuntura Tradicional, Tuiná, Fitoterapia Chinesa, Qi Gong, Lian Gong, Tai Ji Quan, Alimentação Terapêutica);


4. A acupuntura era considerada, até poucas décadas atrás, uma forma de curandeirismo pelo meio científico convencional ocidental e agora passou a ser uma prática científica oficial e irrevogável, sem que nada de novo tenha sido incorporado aos seus fundamentos e diretrizes;


5. A Portaria 971 regulamenta a entrada de Práticas Integrativas no SUS, incluídas a Acupuntura e a Fitoterapia, exercidas pelos profissionais da Área da Saúde; 


6. Atualmente tramitam no Congresso Nacional dois grandes projetos que visam regulamentar a Acupuntura como profissão autônoma e Independente, e vêm sendo ambos bastante desfigurados pelos coletivos de profissionais da Área da Saúde, já contemplados com a especialidade em Acupuntura;


7. Existem no Brasil, desde 1980, cursos técnicos em Acupuntura (alguns com mais de 2.500 horas totalmente presenciais), com formato e densidade acadêmica e preocupados em disseminar a Ciência milenar da Acupuntura, formando profissionais completos, com conhecimento das biociências ocidentais e da grandiosa Medicina Chinesa;


8. A OMS criou diretrizes para a capacitação plena de acupunturistas autônomos e recomenda a inserção desses profissionais nos sistemas de saúde de seus países membros.


Acabado esse necessário intróito, lanço aqui uma pergunta chave: queremos especialistas de profissões da área de saúde, que contam com um corpo teórico distante da MTC, armados somente com uma técnica mal acabada a favor da mesma visão já consolidada nos cursos habituais ou, por outro lado, queremos profissionais imersos numa visão integral do ser humano, com uma formação exaustiva e investigativa sobre os preceitos mais caros dessa ciência que atravessa milênios? Essa não é uma pergunta fácil, mas merece ser estudada com carinho por aqueles que desejam conhecer a Acupuntura em sua plenitude, seja através de uma Pós-graduação ou de uma formação Técnica. Os interessados na acupuntura devem saber que ambas as formações são apenas conjunturais (sobrevivem devido a um desconhecimento geral, ou interesses parciais, sobre a grandiosidade dessa Ciência) e que não retratam a necessidade ideal de apreensão plena desse conhecimento.


Sendo assim, termino com um chamado aos profissionais envolvidos no processo educacional, sejam educadores ou pesquisadores, sejam estudantes: primemos por uma formação sólida e consistente, sem prescindir dos fundamentos desse Saber transdisciplinar e sem esquecer os mais nobres preceitos da Ciência, como a busca livre pelo conhecimento e a coragem para enfrentar o desconhecido, sem as amarras dos dogmas científicos e suas certezas engessadas.


Pedro Ivo é professor da Escola Nacional de Acupuntura, ENAc.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

filosofias

Lao-Tzu e Heráclito

paralelos entre taoísmo e filosofia grega

por Aláya Dullius


“Não se deve considerar alguns dias bons e outros maus, pois isso é ignorar que a natureza de cada dia é uma e a mesma... o Sol é novo todos os dias”. Heráclito de Éfeso

“... O Um, seu aspecto superior não é luminoso. Seu aspecto inferior não é escuro. Nascendo continuamente, não se pode nomeá-lo...” Lao-Tzu


No fim do século VII a.C. nasceu um homem cujos ensinamentos reverberaram por muitos séculos, e por diversos caminhos chegam hoje a nós. Podemos encontrar ecos dos escritos desse “velho professor” - como ficou conhecido Lao-Tzu - nos mais diversos campos de expressão humana, e especialmente, em certas filosofias.

O mundo acadêmico, ainda muito imbuído de velhos preconceitos, considera ordinariamente que a filosofia é um produto da cultura grega, e que iniciou no século VI a.C. Bornheim[1] escreve, na introdução de seu livro Os filósofos Pré-Socráticos, que não podemos ignorar que os povos vizinhos do oriente possam ter tido influência na formação da filosofia grega. Não se trata aqui de uma disputa pelo monopólio da origem da filosofia, mas antes uma reflexão sobre nossa necessidade de permitirmos vislumbrar outros horizontes a partir de perspectivas mais amplas sobre o que é filosofia. “O mundo pode ocasionalmente maravilhar-se com o extremo encanto do florescer simultâneo de várias e ricas civilizações através do mundo que, apesar de suas diferenças étnicas e culturais, guardam, em seu âmago, impressionantes similaridades com respeito a um conjunto de percepções e pensamentos. Embora se costume diferenciar as culturas do ocidente e do oriente como sendo extremamente diversas (e, em certo sentido, o são de fato), existem muito mais pontos de contato e de semelhanças entre elas do que se é comumente aceito, em especial no que diz respeito ao pensamento especulativo ou filosófico”.[2]

Se justapusermos alguns dos importantes fragmentos do pré-socrático Heráclito aos versos do Tao Te King de Lao-Tzu, talvez possamos perceber que “muitos dos temas que vão ocupar os filósofos gregos estão longe de poderem ser considerados originais”[3]. Quem sabe então passemos a considerar Lao-Tzu também um filósofo, e adiantaremos em um século a suposta “origem da filosofia”. Porém, nesse exercício de elasticidade mental, talvez nos demos conta de que tentar estabelecer uma origem temporal e geográfica para algo tão intrínseco da natureza humana, isto é, filosofar e buscar respostas, é um tanto quanto infrutífero. Não podemos julgar a filosofia a partir de nosso preconceitos culturais de hoje, já que é preciso entender as idéias dentro de seu próprio contexto de origem, e não atribuir a elas valores que nunca possuíram de fato; como por exemplo compreender que a physis grega não é nossa natureza e que Theos não é nosso Deus judaico-cristão.

Para o chinês Lao-Tzu natureza também tinha um significado muito mais amplo do que o entendemos hoje no mundo ocidental. E se Heráclito de Éfeso -- nascido no que hoje é a Turquia, menos de um século após o surgimento do Taoísmo -- bebeu dessas fontes taoístas e foi por elas influenciado; ou a partir de suas próprias reflexões chegou a semelhantes conclusões; pouco importa. De ambas as formas é interessante observar como essa sabedoria reverbera nas mais diversas épocas e regiões e permeia a filosofia. É surpreendente que as similitudes entre as visões de mundo destes dois filósofos não sejam comumente reconhecidas.

Algumas das idéias básicas que podemos extrair dos poucos fragmentos gregos que restaram de Heráclito demonstram que ele falava de uma unidade fundamental de todas as coisas, e que todas as coisas estão em movimento, movimento este que se processa através da harmonia de contrários. Da mesma forma Lao-Tzu possuía “uma percepção orgânica e holística do mundo, visto como uma manifestação dinâmica de uma realidade profunda, transcendente e implícita que dá origem a tudo o que existe, e cuja principal característica, sua única constante, é exatamente a contínua transformação das coisas com vistas à renovação e ao equilíbrio dinâmico de tudo o que há”.[4]

Talvez uma das mais conhecidas imagens criadas por Heráclito que ilustrem a questão do devir é a questão do rio: “Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas... Entramos e não entramos nos mesmos rios; somos e não somos... Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira”[5]. Essa ênfase na mudança continua, o “tudo flui” tão presente em Heráclito, possui “uma imagem muito semelhante à idéia chinesa do Tao que se manifesta na interação cíclica do yin e do yang[6]. Nas palavras de Lao-Tzu “O Tao flui sem cessar”[7].

Tanto Heráclito como Lao-Tzu consideram os opostos como pólos de uma mesma interação dinâmica. O chinês afirma “se todos reconhecem o bem como bem, deste modo já se pressupõe o mal. O antes e o depois se seguem mutuamente”. Podemos dizer que yin e yang são energias complementares e que não existem uma sem a outra, pois o conceito sobre algo depende de um oposto que possa ser comparado. Também Heráclito vai encontrar uma unidade nessa dualidade: “Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, e de todas as coisas, um, e de um, todas as coisas”.

Mais interessante ainda fica comparar a passagem de Lao-Tzu: “que diferença existe entre o ‘bem’ e o ‘mal’?... todas as coisas, por mais diversas que sejam, retornam à sua raiz”, com Heráclito: “Bem e mal são uma e a mesma coisa. O caminho para baixo e o caminho para cima é um e o mesmo”. Novamente é a compreensão de que os conceitos só existem quando em relação à outra coisa, e que, interligados em um movimento constante, formam a unicidade, ou o Tao.

O símbolo a que chamamos Tao é um circulo que mostra o movimento de duas energias (yin e yang, preto e branco), cada uma contendo em si a semente da outra. No Tao Te King é dito que “no movimento, o bem se manifesta na oportunidade de ação”. O Filósofo grego também considera o movimento algo muito importante, chegando a dizer que “movendo-se, descansa”. Ainda por cima ele alude ao símbolo de uma circunferência: “Na circunferência, o princípio e o fim se confundem”.

Tradicionalmente se relaciona o yin com a noite, o inverno, o repouso, e o yang com seu oposto de movimento, dia, calor etc. Para Heráclito a ‘divindade’ é “dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Toma formas variadas, assim como o fogo quando misturado com essências. O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam no fogo”.

E a partir disso retiramos outra idéia importante para o filósofo grego: o fogo que a tudo transforma. Mas não é uma referência ao fogo físico, mas a um Fogo-Logos, um “fogo-chi” que transforma e dá vida às coisas. E do fogo surgem os elementos, que geram um ao outros, assim como no taoísmo. Heráclito diz: “O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a da água... O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido”. Taoísmo? Medicina Chinesa? Não... filosofia grega!

E se pensas estar lendo taoísmo ao se deparar com a seguinte sentença: “Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”, então tenha certeza, Heráclito de Éfeso foi um tanto quanto taoísta. E se “o Tao que pode ser pronunciado não é o Tao eterno” (Lao-Tzu), ou se os homens jamais compreenderão o Logos, se “mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.” (Heráclito), então, aproveitando outra deixa do Tao Te King “realizada a obra, é hora de se afastar”.

Aláya Dullius é bacharel em Letras e Mestranda em Filosofia Antiga pela UnB e aluna do 2° semestre da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc.

[1] BORHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix: 1993.

[2] GUIMARÃES, Carlos. A. F. Lao-Tse é o Taoísmo.

[3] CAPRA, Fritjof - O Tao da Física. São Paulo, Editora Cultrix, 1993

[4] GUIMARÃES, Carlos. A. F. Lao-Tse é o Taoísmo.

[5] BORHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix: 1993.

[6] CAPRA, Fritjof - O Tao da Física. São Paulo, Editora Cultrix, 1993

[7] LAO-TZU. Tao-Te King. São Paulo, Pensamento, 1995.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

arte



O grande desafio dos artistas é aniquilar o equilíbrio estático em suas pinturas através de oposições (contrastes) contínuas dentre as maneiras de expressão. É absolutamente natural os seres humanos buscarem um equilíbrio estático. Esse equilíbrio, evidentemente, é necessário para a existência no tempo. Mas a vitalidade na sucessão contínua do tempo sempre destrói esse equilíbrio.” [1]

Piet Mondrian[2]




Piet Mondrian via na arte uma maneira de expressar sua concepção sobre a vida. Vida em constante movimento, onde dualidades/oposições interagem num equilíbrio dinâmico. Em suas obras, Mondrian fez uso das linhas horizontal e vertical como expressão de opostos. Segmentos coloridos e não-coloridos de suas telas transmitem a mesma idéia de oposição (vermelho-quente / azul-frio). A linha vertical representaria o masculino, o mental/espiritual; a linha horizontal (alinhada com a terra), o feminino e o material. Luz e não-luz é outra das dicotomias presentes. As dualidades não são estanques. As linhas vertical e horizontal formam ângulos de noventa graus, sugerindo que os opostos se encontram. As linhas e seus encontros (interseções) conduzem o observador à seguinte pergunta: o que é “fundo”, o que é “figura”? Tanto as linhas quanto as partes coloridas e não-coloridas poderiam ser, simultaneamente, “figura” e “fundo”, situadas em um mesmo plano. A imagem pode ser vista, então, como uma totalidade. Ao olhar para as obras de Mondrian, repare: você enxerga as grades ou os compartimentos coloridos e não-coloridos?

É perceptível a intenção do artista de dispor os elementos de sua obra como um “continuum” de cores, luminosidade, traçados e interseções, de dispô-los como possibilidades de gradações. Ao mesmo tempo, também ao fazer uso de intervalos desiguais entre as linhas cria um visual de ritmo (como em Broadway Boogie-Woogie que sofreu também a influência do jazz americano, ritmo livre, improvisado, sem repetições). Mondrian cumpre assim a tarefa de destruição de uma forma particular e realiza a construção de um ritmo de relações entre oposições, gradações, interseções e intervalos, que transmitem a sensação de movimento, de forças em equilíbrio não-estático, ou seja, em equilíbrio dinâmico.

Mondrian, Dao De Jing / Pensamento Chinês e a Medicina Chinesa

A concepção de equilíbrio dinâmico de Mondrian, com o“precário” equilíbrio entre forças opostas, variáveis e mutantes, sua concepção de vida e arte parecem incrivelmente alinhadas com as idéias de Dao De Jing (base da Medicina Chinesa). Na observação e análise do mundo, os chineses já haviam compreendido os princípios Yin e Yang como polaridades do universo – opostos, mas também complementares, interdependentes, que se consomem mutuamente e podem transformar-se em seu oposto. Yin e Yang interagem consoante o ritmo cíclico da Natureza, evidenciando diversos momentos/movimentos de um mesmo processo, de um mesmo todo. São movimentos incessantes, num contínuo fluxo, num “continuum” de transformações. Transformação e mudança são características essenciais da natureza e dos processos vivos. Entre Yin e Yang encontram-se toda a diversidade possível, as infinitas possibilidades. As dualidades são aspectos de uma mesma coisa: o uno dividido em dois, depois em muitas e infinitas partes.

Dessa forma, para a Medicina Chinesa, a saúde e a doença podem ser aspectos de um mesmo processo. Processo num equilíbrio dinâmico, com flutuações constantes, possibilidades diversas, e que portanto necessita constantemente de ajustes.

Como seres vivos parte da natureza e do universo buscamos a harmonia, o equilíbrio, que, conforme já mencionado, não é estático, mas dinâmico. Estamos em constante movimento, e constantemente em mudanças. Mas o importante é o momento presente. O pensamento não deve estar no passado nem no futuro. Conhecemos o caminho a cada instante, é espontâneo: não pode ser visto, não pode ser conhecido de antemão, o que se vê são projeções que atendem a desejos e que não nos permitem estar aqui e agora. Os desejos não respeitam a natureza, tendem a deixar o coração inquieto e reduzem a capacidade de auto-regulação.

A Medicina Chinesa busca ativar os mecanismos auto-regulatórios naturais do próprio corpo humano, reduzindo a necessidade de ajustes muito grandes e excessivamente drásticos, mesmo com os movimentos e as mudanças. O equilíbrio dinâmico aprecia a ação espontânea segundo o Dao.

Kelly Chung

trabalho produzido para a disciplina Fundamentos do Pensamento Oriental, para o curso de formação profissional em Acupuntura, da Escola Nacional de Acupuntura.



Referências

- Argan, Giulio Carlo, Arte Moderna: Do Iluminismo aos Movimentos Contemporâneos, Companhia das Letras, 1988.

- Capra, Fritjof, O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, 1982.

- D’Agostini, Luiz Renato e Cunha, Ana Paula Pereira, Ambiente, Editora Garamond, Rio de Janeiro, 2007.

- Kinsella, John, Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, in: Salt Magazine, http://www.saltpublishing.com/saltmagazine/issues/01/text/Brennan_Michael_02.htm.

- Kruger, Runette, Art in the Fourth Dimension: Giving Form to Form – The Abstract Paintings of Piet Mondrian, http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4351.pdf.

- Lao Tsé, O Livro do Caminho Perfeito: Tao Té Ching, tradução e adaptação de Murillo Nunes de Azevedo, Editora Pensamento, São Paulo.

- Lao Tse, Tao Te Ching: O Livro do Caminho e da Virtude, tradução de Wu Juh Cherng, http://www.taoismo.org.br.

- Tate Collection, Composition B (No.II) with Red 1935, http://www.tate.org.uk/servlet/ViewWork?cgroupid=-1&workid=26773&searchid=false&roomid=false&tabview=text&texttype=10.

- The Free Library, Piet Mondrian: tableau with large red plane, blue, black, light green and greyish blue, 1921, http://www.thefreelibrary.com/Piet+Mondrian:+tableau+with+large+red+plane,+blue,+black,+light+green...-a0155404638.]

[1] Livre tradução de citação de Piet Mondrian, no artigo “Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, John Kinsella, Salt Magazine, http://www.saltpublishing.com/saltmagazine/issues/01/text/Brennan_Michael_02.htm.

[2] Piet Mondrian (1872-1944)- Pintor Holandês, no início de sua vida, recebeu grande influência do Calvinismo, com uma educação muito rígida (pai era pastor). Em 1914 associa-se ao movimento Neoplástico e por volta de 1920, chega ao estágio de pura abstração.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

justiça seja feita


O acupuntor Marcelo Fabian Oliva e o Centro Integrado de Estudos e Pesquisas do Homem (CIEPH), de Santo Amaro da Imperatriz (SC), não podem ser acusados de exercício ilegal da medicina pela prática da acupuntura… A decisão é do juiz substituto da 6ª Vara Federal de Florianópolis, Jurandi Borges Pinheiro, que proferiu, segunda-feira (14/6), sentença em ação ajuizada contra o Conselho Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina (Cremesc), a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura e a Sociedade Médica de Acupuntura de Santa Catarina. O juiz também determinou ao Cremesc e às duas sociedades que não publiquem anúncios afirmando que a acupuntura só pode ser exercida por médico, sob pena de multa de R$ 50 mil por anúncio.

Pinheiro entendeu que, enquanto o exercício da acupuntura não for regulamentado por lei, o “Conselho Federal de Medicina não pode fazê-lo através de resolução, sob pena de violação da competência privativa da União para legislar sobre as condições para o exercício das profissões”. Além disso, o magistrado apontou que a acupuntura é classificada como profissão de nível técnico na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo essa classificação, é atribuição do acupuntor realizar “prognósticos energéticos por meio de métodos da medicina tradicional chinesa para harmonização energética, fisiológica e psico-orgânica”.

Pinheiro ressaltou, ainda, a inexistência de fundamentação científica consistente para qualificar a acupuntura como “especialidade médica apta a inibir a sua prática sob o enfoque eminentemente holístico”. Na sentença, o juiz registrou que era essa, “curiosamente a visão que dela sempre teve o Conselho Federal de Medicina até 1995, quando então, sem nenhuma descoberta revolucionária no campo da acupuntura, passaram a qualificá-la como técnica a ser utilizada exclusivamente por médicos”. Argentino radicado em Santa Catarina, Oliva processou o Cremesc e as associações, para que não fosse mais acusado de exercício ilegal da medicina e para que não fossem mais divulgados anúncios com a afirmação de que a acupuntura é atividade privativa dos médicos. O acupuntor também pediu que lhe fosse assegurado o direito de resposta às acusações já divulgadas e a condenação dos réus por danos morais.

Os dois últimos pedidos foram negados pelo magistrado, para quem a divulgação de comunicados - afirmando que a acupuntura praticada por não médicos representa risco à saúde - “não constitui fato apto à configuração de dano moral, porquanto dentro dos limites razoáveis de defesa da suposta prerrogativa médica”. Finalmente, Pinheiro considerou que, “com a postulação de indenização, resta inviabilizado o direito de resposta”. Cabe recurso ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Processo nº 2003.72.00.003442-0 Direção do Foro - Secretaria Administrativa Seção de Comunicação Social Rua Arcipreste Paiva, nº 107, Centro, 7º andar 88010-530 - Florianópolis - SC

“Nunca andes pelo caminho traçado, pois ele conduz somente onde outros já foram.” Alexander Graham Bell

notícia retirada da página: http://www.crefito4.com.br/acupuntor.htm

domingo, 26 de julho de 2009

mutações

I CHING: O Livro das Mutações


Tatiana de Moraes Souza

Todos os elementos da natureza estão em permanente estado de combinação, interação, mutação, em busca de um equilíbrio dinâmico e do estado natural das coisas. Ao observarmos esse ponto de vista, percebemos que existe uma ordem, um sentido que rege todos esses arranjos, combinações e interações. Este sentido subjacente a todas as coisas foi chamado TAO pelos sábios da antiguidade chinesa.

Citando um exemplo bem simples, podemos dizer que cada estação do ano corresponde a um arranjo da natureza, tornando mais propícia a vida de determinadas plantas e animais e mais propícias determinadas ações do homem. Assim, o TAO rege também os comportamentos, as virtudes e as ações humanas, de modo que a sabedoria residiria em conseguir apreender a ordem, o sentido vigente em determinada época ou momento e viver em harmonia com ele.

Uma determinada virtude, um valor ético ou mesmo um governante perde sua legitimidade quando deixa de estar em sintonia com a totalidade, com o arranjo, o sentido (TAO) que rege aquele determinado momento. Pode haver o momento da virtude tolerante, o momento da virtude guerreira, o momento da sabedoria e da astúcia, o momento de unir e o de separar.

O TAO nos incita a penetrar e a fundir com a totalidade, mas isso não é possível apenas com o uso do nosso lado racional, é necessário dissolver nosso próprio eu na totalidade e alcançar estados de consciência (ou de inconsciência) por meio dos quais o eu e a natureza se tornem juntos um contínuo de existência, energia e percepção.

Aqui entra o Livro das Mutações ( I Ching ): um tratado científico e filosófico através do qual homem tentou materializar em símbolos o sistema natural da vida, assumindo a necessidade de entender e tentar harmonizar-se com tudo que existe ao seu redor. O I Ching é como se fosse um código para a compreensão dos fenômenos da vida dentro dos ciclos de transmutação nos quais estamos inseridos. Um código que, quando compreendido corretamente através do aprofundamento de nossas vivências em sua sabedoria, nos permite estar em harmonia com todos os processos de mutação de nossas vidas. Algo como encontrar o caminho da menor resistência aprendendo a fluir cada vez mais a favor da corrente.

É um oráculo que representa o presente - e os movimentos que regem o presente - sem considerar uma equação linear de causa e efeito e sim a sincronicidade entre acontecimentos. Nas palavras do sábio (o próprio I Ching): “a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si”. A importância crucial desse livro reside em seu potencial para servir de ponte entre nós e a ordem natural das coisas; para entendê-lo será preciso assumir que suas palavras emergem de nossa interação com o sábio que há em nós mesmos.

Tatiana é aluna do curso de formação profissional em Acupuntura, da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

acupuntura no ocidente


A Integração dos Dois Sistemas no Ocidente


Guido Palmeira


A acupuntura é apenas uma das técnicas terapêuticas que compõem um conjunto de saberes e procedimentos culturalmente constituídos, e dos quais não pode ser dissociada. Além das agulhas, a medicina tradicional utiliza ervas, massagens, exercícios físicos, dietas alimentares, e prescreve normas higiênicas de conduta. Sua lógica é a mesma que orientou toda a vida social da China, no período em que foi desenvolvida: o calendário agrícola, as festas coletivas, os princípios de comportamento social, as regras de etiqueta no trato com as autoridades, a religião, a música, a arquitetura... Os princípios teóricos a partir dos quais as doenças são entendidas, classificadas e tratadas são os mesmos que servem para entender, classificar e lidar com as coisas do mundo', a natureza, o espaço e o tempo. (A este respeito ver: Granet, 1968).


Pretender que a eficácia de um saber que, segundo Cai Jing Feng, "tem controlado as maiores epidemias de doenças infecciosas na história da China", deva-se a que a introdução de agulhas, em determinados pontos, tenha como conseqüência a liberação de mediadores bioquímicos que interferem no fenômeno da dor; e que o sucesso obtido pelos chineses com a acupuntura durante dois mil e quinhentos anos de desenvolvimento seja fruto apenas da acumulação de observações empíricas, é fechar os olhos ao saber tradicional, é descaracterizá-lo, é optar por uma 'cegueira etnocêntrica'.


Embora os autores orientais considerem que a política de integração entre os dois sistemas, praticada na China desde 1949, tenha permitido um grande desenvolvimento não só na atenção à saúde do povo chinês, como da própria medicina tradicional — e o surgimento das técnicas de anestesia cirúrgica com acupuntura nos anos cinqüenta testemunha que têm razão —, a recíproca pode não ser verdadeira.


Nos últimos quarenta anos, o oriente desenvolveu novas técnicas terapêuticas, associando o saber milenar com o saber e a técnica ocidentais. Ao ocidente, que não domina o saber tradicional, — ao contrário, o nega — restou a pobre e limitada perspectiva de procurar esclarecer, com seus próprios recursos teóricos, os mecanismos de ação e os efeitos de uma técnica oriental isolada em uma situação específica, a dor. No ocidente, a procura da cientificidade da acupuntura, ao contrário de esclarecer (ou legitimar) o saber que lhe dá sentido, tem sido a busca da confirmação da hegemonia da ciência médica, a possibilidade de fazê-la capaz de explicar os efeitos até então enigmáticos das agulhas.


Se o crescimento da aceitação da acupuntura no ocidente pode ser o reflexo da crise da medicina científica, e se a crise da medicina ocidental se identifica com a crise de seu paradigma positivista; então os estudos 'científicos' da acupuntura pouco poderão contribuir para a superação dessa crise, enquanto insistirem em negar a possibilidade de uma medicina, de uma ciência de dois mil e quinhentos anos, que tem a sua lógica própria, diferente daquela da ciência ocidental.


É possível (quiçá provável) que a maior colaboração que o oriente possa trazer a medicina ocidental não esteja na sua técnica, mas no seu saber, nos conceitos a respeito da natureza e da causalidade das doenças, na sua visão holística do ser humano, na valorização da tendência à autocura inerente ao organismo, no significado do "equilíbrio" que se busca com a terapia.


No entanto, para se ter acesso ao saber tradicional, será preciso compreender os seus princípios, poder perceber claramente o Yin e o Yang no mundo, e a possibilidade do Tao (3); será preciso reconhecer na natureza, no céu e na terra, as seis energias e os cinco elementos, aprender a distinguir, no exame do paciente, onde está o frio e onde está o calor, onde estão as insuficiências e onde estão os excessos.


Para se ter acesso ao saber tradicional, será preciso admitir a possibilidade de que estas categorias possam se organizar em um sistema coerente cuja lógica, que orientou tanto a ordenação biológica quanto a ordenação social da China, durante a maior parte dos últimos vinte e cinco séculos, deve ser apreendida não só pelo estudo da medicina, como pela compreensão da religião, da filosofia, dos costumes, enfim, da história e da cultura da civilização chinesa.


Guido Palmeira é Pesquisador do DEMQS/ Ensp/ Fiocruz


Trecho do estudo "Acupuntura no Ocidente" publicado no Cadernos de Saúde Pública. Para leitura completa acessar: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X1990000200002&script=sci_arttext

domingo, 12 de julho de 2009

A Carta



Carta pela Regulamentação da Acupuntura Autônoma e Independente


A presente carta tem como inspiração maior a célebre
Carta da Transdisciplinaridade, redigida em 1994 por
Basarab Nicolescu (Físico romeno), Edgar Morin
(Sociólogo e Pensador francês) e Lima de Freitas
(Artista e escritor português).


Pedro Ivo

Considerando que a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é uma ciência milenar documentada em extensa literatura, há mais de 2.000 anos, e que sua eficácia como sistema terapêutico independente e auto-suficiente se mantém ao longo desses milênios e segue cada vez mais viva e atual, justamente por seu caráter atemporal;

Considerando que seu Sistema de Padrões e Correspondências entre os seres humanos e as forças da natureza e sua visão da continuidade entre corpo, mente e espírito como uma única, e indissociável, entidade integrada, continuam encantando a população em geral independentemente, ou apesar, das comprovações científicas parciais (às vezes tendenciosas) e pautadas em paradigmas já ultrapassados;

Considerando que a MTC é um Sistema Terapêutico completo que contempla o Ser Humano em sua integralidade e conta com uma gama de recursos terapêuticos que auxiliam os indivíduos em seu equilíbrio dinâmico e ativam o potencial de cada um de se auto-regular, podendo ser considerada, portanto, um Saber Tradicional com uma racionalidade própria e com grande potencial para satisfazer as necessidades do Estado de lançar-mão de práticas preventivas reais e de baixo custo, que visem mais amplamente a saúde e não somente a doença;

Considerando que as práticas da MTC – a Acupuntura, o Tui Na (Massoterapia Chinesa), a moxabustão, as práticas meditativas corporais (Tai Chi Chuan, Chi Kung e Lian Kung), a Fitoterapia (na farmacopéia chinesa), a Alimentação Terapêutica Chinesa, o Feng Shui, etc – estão todas apoiadas em uma racionalidade própria que tem como base o pensamento taoísta;
Considerando que o taoísmo se aproxima da visão transdisciplinar por não conceber as esferas do saber de maneira isolada e por não separar arte, filosofia, ciência e religião ou, dito de outro modo, como o explicitado no artigo 5 da Carta citada anteriormente, “a visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas por seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual”;

Considerando que o pensamento taoísta e a consolidação do Saber da MTC (Acupuntura) no ocidente estão em comunhão com o Saber Complexo que, segundo Edgar Morin, “requer um pensamento que capte relações, interrelações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas, que respeite a diversidade, ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes”;

Considerando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a adoção, por parte de seus países membros, da MTC (Acupuntura) como prática independente em seus serviços públicos de saúde e criou diretrizes para a capacitação plena de Acupunturistas autônomos;
Considerando que tramitam no Congresso Nacional dois grandes Projetos de Lei que regulamentam a prática da Acupuntura como profissão autônoma e em Nível Superior, em especial o PLS 00480/2003 da Senadora Fátima Cleide, seriamente relatado pelo Senador Flávio Arns e o PL 1549/2003 do deputado federal Celso Russomanno;

Considerando que desde 1981 existem cursos técnicos de formação profissional em Acupuntura reconhecidos pelo MEC, que não guardam nenhuma relação de subordinação com nenhuma outra profissão da saúde, sendo pautados em modelos acadêmicos de ensino e que somente alguns anos depois foi reconhecida a “especialidade” em Acupuntura pelos Fisioterapeutas e, somente em 1995, pelo coletivo Médico;

Considerando que nenhum dos cursos universitários da área de saúde hoje existentes no país contempla, em suas disciplinas de base, nem mesmo os fundamentos mais elementares da MTC, sendo algumas vezes orientados por princípios diametralmente opostos;

Considerando que grande parte dos profissionais da área de saúde que hoje lutam pela exclusividade da Acupuntura como “especialidade” obtiveram seus conhecimentos a partir de Acupunturistas Tradicionais, não médicos e na maioria das vezes também sem nenhum outro bacharelado da saúde ocidental;

Considerando que os Conselhos da área de saúde, que hoje reclamam a Acupuntura como especialidade, poucos anos atrás negavam, veementemente, sua eficácia e taxavam seus praticantes de curandeiros e charlatões;

Considerando ainda que a formatação da Acupuntura Científica parece mais se adequar a uma necessidade ou “Vontade de Verdade” (nas palavras de Michel Foucault) da Ciência Oficial do que de uma livre busca científica, onde a própria Ciência Oficial se coloca no papel de juiz das outras Ciências e promove uma racionalização que, nas palavras de Edgar Morin, “[...] consiste em querer encerrar a realidade num sistema coerente. E tudo o que, na realidade, contradiz este sistema coerente é desviado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência”;

Considerando também que o artigo primeiro da Carta supracitada proclama que “qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolvê-lo nas estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar”;

Considerando tudo o que precede, venho propor a união de todos os que compartilham este Espírito Transdisciplinar em prol da consolidação da Medicina Tradicional Chinesa, sendo a Acupuntura sua ferramenta mais difundida, como um Sistema Único e devidamente regulamentado, livre das pressões corporativas e mercadológicas e em comunhão com toda a tendência mundial de expansão das práticas e dos Saberes Tradicionais e Naturais de forma independente e autônoma.

Pedro Ivo é professor da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc


http://www.cetrans.com.br/textos/documentos/carta-da-transdisciplinaridade.pdf


Bibliografia:
FOUCAULT, Michel. A Ordem do discurso. São Paulo: Loyola,1996.
MORIN, Edgar. Sobre a Reforma Universitária. Em: Educação e complexidade: Os Sete
Saberes, 11-25. São Paulo: Cortez Editores, 2002.
NICOLESCU, Basarab. Fundamentos Metodológicos do Diálogo Transcultural. Em: Edgard
de Assis & Terezinha Mendonça (orgs), Ensaios de Complexidade 2, 217-232. Porto alegre:
Editora Sulina, 2003.
FREITAS, Lima de; MORIN, Edgar; NICOLESCU, Basarab. Carta da Transdisciplinaridade.
Convento da Arrábida, 6 de novembro de 1994.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

o desafio a enfrentar


Complexidade, Transdisciplinaridade e os Fundamentos do Pensamento Oriental

“ A complexidade não é a chave do mundo, mas o desafio a enfrentar , o pensamento complexo não é o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo e, por vezes, mesmo a ultrapassá-lo.” Edgar Morin

Alexandre Jorge dos Santos*

O pensamento complexo, a Transdisciplinaridade e os Fundamentos do Pensamento Oriental possuem algo em pararelo ou são apenas modismos, assim por dizer, de uma sociedade que busca muletas para a sua paralisia de paradigmas que respondam às suas expectativas, desejos e tantas interrogações cognitivas ?

Essa pergunta nos parece algo confusa e muito distante pois em nossa mente não existe a conceituação de complexidade, de transdisciplinaridade e, nem tão pouco, de crescimento intelectual dentro de uma filosofia que busca o caminho...... sendo que o caminho é um grande vazio que flui sem transbordar. (...)

Em um primeiro contato , a palavra complexidade, remetendo a pensamento complexo, nos faz pensar em algo difícil , complicado, intricado e intangível, em razão de tocar, dentro do nosso pobre entendimento, na parte mais obscura de cada um - o pensamento (...). Segundo a proposta de Edgar Morin, temos que religar tudo que a ciência cartesiana desligou.

Segundo Humberto Mariotti¹, a complexidade não é um conceito teórico e sim um fato da vida. Corresponde à multiplicidade, ao entrelaçamento e à contínua interação da infinidade de sistemas e fenômenos que compõem o mundo natural. Os sistemas complexos estão dentro de nós e a recíproca é verdadeira. É preciso, pois, entendê-los para melhor conviver com eles. Não importa o quanto tentemos, não conseguimos reduzir essa multidimensionalidade a explicações simplistas, regras rígidas, fórmulas simplificadoras ou esquemas fechados de idéias. A complexidade só pode ser entendida por um sistema de pensamento aberto , abrangente e flexível: uma nova visão de mundo, que aceita e procura compreender as mudanças contínuas do real e não pretende negar a multiplicidade , a aleatoriedade e a incerteza, e sim conviver com elas.

Segundo Capra (1996) o pensamento fragmentado não é capaz de tratar e resolver a interconexão dos problemas globais, tanto nos níveis maiores da sociedade como no nível do indivíduo , da particularidade. É necessário então uma nova forma de pensar e visualizar o mundo, que elimine a chamada “crise de percepção”, que é a raiz mais profunda das crises que nos cercam.

Analisando a proposta de Morin, explicitada no livro "Os sete saberes necessários à educação do futuro" (http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.pdf), que ele mesmo chama de inspirações para o educador (...) conclui-se que na questão prática de aplicar os saberes, o fundamental é não transformá-los em disciplinas, mas sim em diretrizes para ação e para elaboração de propostas e intervenções educacionais. Talvez, em razão disso é possível observarmos uma grande proximidade entre “Os sete saberes” e os artigos da "Carta da Transdisciplinaridade". (http://www.cetrans.com.br/textos/documentos/carta-da-transdisciplinaridade.pdf )

(...) Com base no livro do Professor Humberto Mariotti, As Paixões do Ego : Complexidade, Política e Solidariedade (São Paulo, Editora Palas Athena, 2000) , transcrevo pontos que permitem um melhor entendimento quanto ao pensamento complexo:

● Tudo está ligado a tudo.*
● O mundo natural é constituído de opostos ao mesmo tempo antagônicos e complementares. *
● Toda ação implica um Feedback.
● Todo Feedback resulta em novas ações.
● Vivemos em círculos sistêmicos e dinâmicos de feedback, e não em linhas estáticas de causa-efeito imediato.
● Por isso, temos responsabilidade em tudo que influenciamos.*
● O feedback pode surgir bem longe da ação inicial, em termos de tempo espaço.
● Todo sistema reage segundo a sua estrutura.
● A estrutura de um sistema muda continuamente , mas não a sua organização.*
● Os resultados nem sempre são proporcionais aos esforços iniciais.
● Os sistemas funcionam melhor por meio de suas ligações mais frágeis.
● Uma parte só pode ser definida como tal em relação a um todo.
● Nunca se pode fazer uma coisa isolada.*
● Não há fenômenos de causa única no mundo natural.
● As propriedades emergentes de um sistema não são redutíveis aos seus componentes.
● É impossível pensar num sistema sem pensar em seu contexto ( seu ambiente)*
● Os sistemas não podem ser reduzidos ao meio ambiente e vice-versa.

Alguns Benefícios do Pensamento Complexo:

● Facilita a percepção de que a maioria das situações segue em determinados padrões.*
● Facilita a percepção de que é possível diagnosticar esses padrões (ou arquétipos sistêmicos, ou modelos estruturais) e assim intervir para modificá-los (no plano individual, no trabalho e em outras circunstâncias).
● Facilita o desenvolvimento de melhores estratégias de pensamento.
● Permite não apenas entender melhor e mais rapidamente as situações , mas também ter a possibilidade de mudar a forma de pensar que levou a elas.*
● Permite aperfeiçoar as comunicações e as relações interpessoais.
● Permite perceber e entender as situações com mais clareza, extensão e profundidade.
● Por isso, aumenta a capacidade de tomar decisões de grande amplitude e longo prazo.

O que se aprende por meio do Pensamento Complexo:

● Que pequenas ações podem levar a grandes resultados (efeito borboleta).
● Que nem sempre aprendemos pela experiência.
● Que só podemos nos autoconhecer com a ajuda dos outros.
● Que soluções imediatistas podem provocar problemas ainda maiores do que aqueles que estamos tentando resolver.
● Que não existem fenômenos de causa única.
● Que toda ação produz efeitos colaterais.
● Que soluções óbvias em geral causam mais mal do que bem.
● Que é possível (e necessário) pensar em termos de conexões, e não de eventos isolados.*
● Que os princípios do pensamento sistêmico podem ser aplicados a qualquer sistema.
● Que os melhores resultados vêm da conversação e do respeito à diversidade de opiniões, não do dogmatismo e da unidimensionalidade.
● Que o imediatismo e a inflexibilidade são os primeiros passos para o subdesenvolvimento, seja ele pessoal, grupal ou cultural.

* Esses pontos, especificamente, podem ser comparados com a postura do Acupunturista frente ao tratamento e com as bases e fundamentos do Pensamento Oriental.

* Trechos do trabalho apresentado para a disciplina de Fundamentos do Pensamento Oriental, do Curso Técnico de Acupuntura, da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc

1. Médico psicoterapeuta, coordenador do Grupo de Estudos de Complexidade e Pensamento Sistêmico da Associação Palas
Athena(SP). www.geocities.com/pluriversu

terça-feira, 26 de maio de 2009

valorização a posteriori


O Reconhecimento Autêntico da Acupuntura



“A inteligência parcelar, compartimentada, mecânica, disjuntiva, reducionista, quebra o complexo do mundo, produz fragmentos, fraciona os problemas, separa o que é ligado, unidimensionaliza o multidimensional.” Edgar Morin



Pedro Ivo

Neste momento de encontros e desencontros entre as categorias profissionais envolvidas no processo de regulamentação da Acupuntura – Medicina Tradicional Chinesa, escrevo este artigo com a intenção de aprofundar a discussão e de fazer chegar às pessoas interessadas nesse processo uma das versões possíveis. Pretendo, com o presente texto, demonstrar como é necessária a discussão e, para tanto, faço minhas as palavras do filósofo peruano Fidel Tubino Arias-Schreiber para enfatizar a necessidade de uma valorização do Saber da Medicina Chinesa em sua plenitude para fazer emergir um reconhecimento autêntico, fruto da experiência do encontro com essa forma peculiar de entender a saúde e a doença, tão diferente da perpetuada pelas profissões da Área de Saúde ocidentais. Arias-Schreiber, em seu “Interculturalizando o Multiculturalismo”, profere o seguinte:

“O reconhecimento é mais que a tolerância positiva. Reconhecer o outro em sua alteridade radical é mais que respeitar suas diferenças e percebê-lo a partir de sua percepção do mundo. Reconhecer o Outro é respeitar sua autonomia, é percebê-lo como valioso. Mas a valorização a priori do outro é um falso reconhecimento. [...] O verdadeiro reconhecimento é a posteriori. Nasce da experiência do encontro com o Outro. Mas somente é possível em relações autenticamente simétricas e livres de coação. O verdadeiro reconhecimento pressupõe uma atitude reflexiva em relação a nós mesmos, uma objetivação de nossa maneira de entender e valorizar o mundo.[...] Permite-nos liberar do etnocentrismo acrítico que impede a abertura ao outro e a valorização das diferenças. A valorização a posteriori do diferente é o reconhecimento autêntico.” (Arias-Schreiber, 2005:189-190, tradução livre)

Nessa direção, tentarei esclarecer, ainda que de maneira breve, alguns pontos relevantes da discussão que circunda os Projetos de Lei para regulamentação da Acupuntura-MTC, em tramitação no Congresso Nacional. Em primeiro lugar, defendo a autonomia da Acupuntura-MTC – junto com muitos profissionais conhecedores dessa ciência e isentos de interesses escusos – pela sua evidente coerência teórica, pela sua eficácia prática comprovada (até mesmo por uma metodologia cartesiana limitada) e pela independência de seus ensinamentos, maturados durante milênios e amplamente documentados em vasta literatura. Também pela sintonia desse Saber com a vanguarda da Ciência ocidental, a qual corrobora o caráter científico da Medicina Chinesa, com sua racionalidade própria, independente das tentativas etnocêntricas e interesseiras de fazê-la inteligível dentro dos marcos teóricos predeterminados pelas “biociências”. Edgar Morin, por exemplo, lembra-nos de que há “na história da filosofia ocidental e oriental, numerosos elementos e premissas de um pensamento da complexidade. Desde a Antigüidade, o pensamento chinês funda-se sobre a relação dialógica (complementar e antagônica) entre o yin e o yang e, segundo Lao Tsé, a união dos contrários caracteriza a realidade” (Morin, 2000). O próprio texto da Portaria 971, a qual implementa a acupuntura-MTC no SUS praticada somente pelos chamados “especialistas”, a define assim, comprovando a ambigüidade que paira sobre este assunto: “A Medicina Tradicional Chinesa caracteriza-se por um sistema médico integral (grifo meu), originado há milhares de anos na China”.

Um segundo ponto, não menos importante, diz respeito a esta tentativa de reduzir o Saber Complexo da Acupuntura-MTC a uma técnica singela de combate à dor (única explicação aceita para seus mecanismos de ação, segundo os ditames ocidentais – ainda que de maneira inespecífica, como se os pontos de acupuntura pudessem ser escolhidos no tratamento sem um critério meticuloso, muito se distanciando da realidade terapêutica chinesa) ou ao serviço das diferentes profissões que reconhecem, dentro de seus conselhos, a Acupuntura como “especialidade”, quando é sabido que existe por trás desta “técnica” um arsenal teórico independente e autônomo, de caráter transdisciplinar - por contemplar o ser humano em toda sua complexidade, não separando corpo-mente-espírito, e com uma rede de informações coesas que corroboram dita inseparabilidade.

Já sobre as especialidades em Acupuntura - uma aberração, a partir do ponto de vista da Medicina Chinesa, a qual não pode conceber o estudo do ser de maneira fragmentada - muitos são os argumentos que desmontam esta possibilidade: 1. como já comentado em outras oportunidades, a inclusão da especialidade em acupuntura, por diferentes conselhos, somente vêm a confirmar a óbvia grandiosidade da Acupuntura-MTC, a qual deveria ser, portanto, uma profissão independente; 2. o aprendizado da MTC deve passar por uma nova e exaustiva formação, independente das já existentes, que passa pelo desenvolvimento de uma nova percepção sobre a vida e seus mecanismos; 3. os conselhos não deveriam aceitar a especialidade em Acupuntura por se tratar de uma “técnica” sem validade científica, segundo os critérios metodológicos dos próprios conselhos; 4. os mecanismos de ação da acupuntura são desconhecidos pela ciência convencional (portanto não-científicos) e esta nova certeza científica (que ocupa o lugar do ceticismo e da desconfiança que pairavam sobre a acupuntura nas últimas décadas) parece forjada para atender aos anseios dos grupos interessados. Sobre os dois últimos tópicos, recorro ao neurofisiologista Renato Sabbatini, pesquisador da UNICAMP:

“... a conclusão é a seguinte: os resultados de pesquisas médicas sobre a acupuntura são contraditórios, e dependem muito da qualidade do estudo e da tendência pessoal dos pesquisadores. Em geral, estudos metodológicos mais bem feitos mostram que a acupuntura não tem nenhum efeito superior ao placebo em dores crônicas das costas, cessação de tabagismo, perda de peso e apetite e doenças reumáticas. Parecem ter algum efeito em dores agudas de dente, dores de cabeça e dores causadas por disfunções da articulação temporo-mandibular, mas não são efeitos fortes (poderiam ser causados por outras coisas além das alegadas pelas bases teóricas alegadas para a acupuntura).” (Sabbatini, 2001)

Ainda nesse campo, acho importante ressaltar a ambigüidade que nasce da necessidade de comprovação científica da acupuntura, a partir do prisma ocidental, para que seja aceita como especialidade. Por um lado, os mecanismos de analgesia são amplamente divulgados como dados científicos (ainda que processados de maneira inespecífica, ou seja, qualquer ponto poderia gerar tal resposta no organismo) e, por outro, uma infinidade de indicações é celebrada, sem qualquer comprovação aceita (como no trecho do artigo supracitado). Ainda neste tópico, para os iniciados em Acupuntura-MTC, por outro lado, fica evidente a coerência de seus postulados e a especificidade de suas condutas, direcionadas a partir de uma metodologia de diagnóstico complexa, na busca de Padrões de Desarmonia dinâmicos (com a leitura da interação entre os vários sinais e sintomas que se apresentam em um momento dado) e na consequente eleição de combinações de pontos criteriosamente escolhidas dentro da lógica própria da MTC.

Já a caminho da finalização do presente artigo, - com lástima, pela quantidade de informações que ficam de fora - saliento que o importante em todas estas considerações é que fique aberto o diálogo democrático e que esse grandioso Saber seja realmente levado a sério, sem as amarras das certezas científicas pré-moldadas e com as armas do verdadeiro espírito investigativo – tão caro ao cientista da Medicina Chinesa, ou seja, às pessoas comuns atentas às suas mudanças e oscilações, às demandas pessoais, às suas interações com o meio, aos alimentos e suas adequações e com a inata espiritualidade de cada um, em uma rica dança transdisciplinar. Assim sendo, deixo a esperança de que seja efetivada uma aproximação verdadeira de nossos profissionais da Saúde e de nossos legisladores com a Ciência da Acupuntura-MTC, essa rica fonte para o entendimento da vida e de seus sutis mecanismos, para que, deste modo, nasça o respeito por sua autonomia e a devida valorização de seus nobres fundamentos.


Pedro Ivo é professor da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc


ARIAS-SCHREIBER, Fidel Tubino. Interculturalizando el Multiculturalismo. Lima: Fundación CIDOB, 2005.

MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: Francisco Menezes Martins e Juremir Machado da Silva (org), Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulina/Edipucrs. 2000.

SABBATINI, Renato. Acupuntura funciona? Correio Popular, Campinas, (25/7/2001 e 3/8/2001).

ver de perto

o corpo taoista

o corpo não é um mero fato” biológico, mas se encontra imbricado em uma rede cosmológica, que o conecta às estações do ano, às direções do espaço, às cinco cores, aos cinco sabores e às cinco energias (metal, água, madeira, fogo e terra). Da perspectiva taoísta, o corpo possui um aspecto visível – material – e outro invisível, constituído por “Três Tesouros”: espírito (shen), energia (qì) e essência (jing).

José Bizerril

livros

“O mundo valoriza os livros, e acha que, assim fazendo, está valorizando o tao. Mas os livros apenas contêm palavras. Apesar disso, algo mais existe que valoriza os livros. Não apenas as palavras, nem o pensamento das palavras, mas sim algo dentro do pensamento, balançando-se numa certa direção que as palavras não podem aprender. Mas são as próprias palavras que o mundo valoriza quando as transmite aos livros: e, embora o mundo as valorize, estas palavras são inúteis enquanto aquilo que lhes der valor não é honrado”.

Chuang Tsé

tui na

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el camino

direitos autorais

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interação cromodinâmica de mentiras empíricas