sexta-feira, 23 de outubro de 2009
a escuta
A escuta nas racionalidades médicas.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
código brasileiro de ocupações
Acupuntura - CBO |
3221-05 - | Acupunturista - Acupuntor, Fitoterapeuta, Técnico corporal em medicina tradicional chinesa, Técnico em acupuntura, Terapeuta naturalista, Terapeuta oriental |
Condições gerais de exercício | |
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Formação e experiência | |
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A - PROGNOSTICAR DISFUNÇÕES | |
1 | Realizar anamnese |
2 | Avaliar sinais e sintomas |
3 | Analisar exames |
4 | Tomar medidas antropométricas e energéticas |
5 | Avaliar micro-sistemas do paciente |
6 | Avaliar estado bioenergético do paciente |
7 | Analisar biomecânica |
8 | Avaliar tecidos moles |
9 | Avaliar sistema muscular (força, temperatura e tônus) |
10 | Avaliar sistemas neuro-músculo-esquelético |
11 | Avaliar sistemas cárdio-respiratório, circulatório, digestivo, gênito-urinário e emocional |
12 | Solicitar exames complementares |
13 | Encaminhar paciente à outros profissionais |
B - TRATAR PACIENTE | |
1 | Planejar procedimentos |
2 | Preparar paciente |
3 | Efetuar assepsia do local |
4 | Selecionar pontos de acupuntura |
5 | Aplicar agulhas e moxabustão |
6 | Tonificar energia |
7 | Escoar estagnação energética (sedar) |
8 | Desobstruir circulação |
9 | Desintoxicar organismo |
10 | Corrigir desequilíbrios energético-psico-orgânicos, fisiológicos, bio-químicos, enzimáticos e hormonais |
11 | Aplicar emolientes e anestésicos |
12 | Equilibrar tônus muscular |
13 | Normalizar nervos comprimidos ou irritados (fluxo nervoso) |
14 | Retirar lâmina ungueal |
15 | Efetuar curativos |
16 | Normalizar movimentos articulares (ativo, passivo e jogo articular) |
17 | Massagear pés |
18 | Palpar estruturas articulares, musculares e ósseas |
19 | Realizar manipulações miofaciais (toque, massagem e alongamento) |
20 | Estimular movimento crâneo-sacral |
21 | Normalizar movimentos articulares (ativo, passivo e jogo articular) |
22 | Atender emergências |
C - ADMINISTRAR CLÍNICA | |
1 | Agendar consultas |
2 | Cadastrar cliente |
3 | Estabelecer contrato com cliente |
4 | Controlar estoque |
5 | Treinar pessoal |
6 | Administrar finanças |
7 | Providenciar manutenção da clínica |
8 | Divulgar serviços |
D - TRABALHAR COM BIOSSEGURANÇA | |
1 | Higienizar local de trabalho |
2 | Usar epi |
3 | Esterilizar instrumental |
4 | Trabalhar com ergonomia |
5 | Armazenar produtos químicos e medicamentos |
6 | Descartar material e medicamento com validade vencida |
7 | Acondicionar materiais pérfuro-cortantes para descarte |
8 | Acondicionar lixo contaminado para incineração |
E - COMUNICAR-SE | |
1 | Ouvir paciente |
2 | Explicar técnicas e procedimentos |
3 | Informar paciente sobre sua condição |
4 | Orientar sobre postura estática e dinâmica |
5 | Orientar paciente sobre medidas preventivas |
6 | Prescrever exercícios |
7 | Recomendar uso de medicamentos ao paciente |
8 | Indicar fitoterápicos |
9 | Registrar informações técnicas |
10 | Produzir relatórios |
11 | Ministrar aulas |
Competências pessoais | |
1 | Agir com bom senso |
2 | Trabalhar com ética |
3 | Cuidar da higiene e aparência pessoal |
4 | Demonstrar percepção táctil e/ou visual |
5 | Ficar à disposição do paciente |
6 | Cuidar do relacionamento inter-pessoal |
7 | Aprimorar paciência |
8 | Demonstrar coordenação motora fina |
9 | Manipular materiais, produtos químicos e medicamentos para uso no atendimento |
10 | Aplicar digitopuntura e eletro estimulação (cromo-, laser-, magneto-, fotopuntura, etc) |
11 | Utilizar métodos complementares (fitoterapia, floral, exercícios energéticos, tuiná, massagens) |
12 | Atualizar-se profissionalmente |
Lavatório | |
Produtos químicos | |
Posturômetro | |
Algodão e álcool | |
Moxas | |
Palmilhas e calços | |
Aparelhos elétricos para estimulação | |
* Ventosas | |
Martelo de sete pontas | |
Martelo de reflexos | |
Magnetos | |
Cadeira podológica | |
Micropore e esparadrapo | |
Lupa | |
Pinças, bandejas, tesouras | |
* Epi - equipamento de proteção individual | |
Microcâmera | |
Aparelho de alta freqüência | |
Alicates e tesouras | |
* Negatoscópio | |
* Bisturi e lâminas | |
Ataduras gessadas | |
Fibras, gesso, silicone e eva | |
Ativador (martelete) | |
* Agulhas de acupuntura | |
Compressas e bolsas térmicas | |
Avental, lençol e papel descartável | |
Maca | |
Suportes de posicionamento | |
Carretilha | |
Luvas de procedimento | |
* Balança | |
Brocas, fresas, lixas | |
Materiais ortodônticos | |
Gase, algodão | |
* Micromotor e motor de rotação | |
* Estufa e autoclave | |
Bandagem | |
* Medicamentos, fitoterápicos e cataplasmas | |
Aparelho de laser | |
Especialistas consultados | |
Aparecida Maria Bombonato | |
Carlos Braguini Júnior | |
Celso Luiz de Freitas | |
Eni Lima | |
Jayme Roberto Justino | |
Joge Carlos Ribeiro da Rocha Mollica | |
José Paulo Teixeira dos Santos | |
Júlio Ramos Avelar | |
Manoel Matheus de Souza | |
Marco Aurélio Pires | |
Orlando Madella Júnior | |
Orley Dulcetti Júnior | |
Paulo Cesar Varanda | |
Instituições consultadas | |
Centro de Acupuntura e Terapias Integradas Neiking | |
Clínica Matheus de Souza | |
Delta Sistemas de Saúde | |
Huang-ti Inst. Acup. Méd. Nat. Integradas | |
Ibraqui - Instituto Brasileiro de Quiropraxia | |
Instituto Brasileiro de Acupuntura e Homeopatia (IBRAHO) | |
Instituto Brasileiro de Medicina Chinesa e Terapia | |
Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-DR-SP) | |
Salus Instituto de Saúde Holística Ltda. | |
Instituição conveniada responsável |
FIPE |
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Mestres do Caminho
ver também: http://orientalismo.blogspot.com/
Tais concepções conclamavam as pessoas ao estudo íntimo e a meditação profunda do papel do ser humano no seu meio. Laozi foi um tanto hermético nos seus discursos sobre o resgate da harmonia primordial, mas ao mesmo tempo foi original e autêntico, quando propôs que a real liberdade do ser não poderia ser atingida pela prática de uma cultura que trazia dentro de si o cerne da degradação. Toda e qualquer construção humana que se distanciasse de uma base natural tenderia a gerar perturbação, já que ela provocaria o surgimento de novas ânsias, duvidas, conflitos e perigos que jogariam os seres uns contra os outros. A abordagem do Caminho deveria ser feita, com segurança, através da flexibilidade do pensamento, da ação contida e do coração aberto aos movimentos do mundo.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
racionalidades
| Racionalidades Médicas | Medicina Ocidental Contemporânea | Medicina Homeopática | Medicina Tradicional Chinesa | Medicina Ayurvédica |
| Cosmologia | Física Newtoniana(Clássica) – Implícita | Cosmologia Ocidental Tradicional (Alquímica) e clássica (Newtoniana) – implícita | Cosmogonia Taoísta (geração do microcosmo a partir do macrocosmo) | Cosmogonia Védica (geração do microcosmo a partir do macrocosmo) |
| Doutrina Médica | Teoria da causalidade da doença e seu combate | Teoria da energia ou força vital e seu desequilíbrio nos sujeitos individuais | Teorias do Yin-Yang, das cinco fases, e seu equilíbrio (harmonia) nos sujeitos individuais | Teoria dos cinco elementos e das constituições humorais nos sujeitos individuais |
| Morfologia | Morfologia dos sistemas (macro e micro orgânico) | Organismo Material e força vital animadora | Teoria dos canais e colaterais; dos pontos de acupuntura; dos órgãos e vísceras | Teoria da densidade dos corpos; da constituição dos tecidos vitais; dos orgãos e dos sentidos |
| Fisiologia ou Dinâmica Vital | Fisiopatologia e fisiologia dos sistemas | Fisiologia energética implícita; Fisiologia dos sistemas; fisiopatologia do medicamento e do adoecimento | Fisiologia dos sopros vitais; dos Zang-Fu Dinâmica Yin/Yan No organismo e no ambiente | Fisiologia energética (Circulação do prana nos diversos "corpos" Equilíbrio dos Tridoshas |
| Sistema Diagnóstico | Semiologia: anamnese; exame físico e exames complementares | Semiologia: anamnese do desequilíbrio individual. Diagnóstico e remédio da enfermidade individual. | Semiologia: anamnese do desequilíbrio Yin/Yang Diagnóstico do desequilíbrio dos sujeitos | Semiologia: Anamnese do desequilíbrio dos "tridosha" Sistema de observação dos "oito pontos" Diagnóstico do desequilíbrio dos sujeitos |
| Sistema Terapêutico | Medicamentos, cirurgia, higiene | Medicamento, higiene | Higiene, exercícios (artes, meditação) Dietética; fitoterapia; massagens Acupuntura, moxabustão | Dietética Técnicas de eliminação e purificação Exercícios (Yoga, meditação) Massagens; Fitoterapia (vegetais, minerais e animais) |
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
de panacéia mística à especialidade médica
Comprovação científica e eficácia terapêutica |
A visão da imprensa nos sugere a existência de um eixo explicativo para a crescente aceitação da acupuntura, onde esta transita entre a crendice e o charlatanismo, de um lado, e como portadora de um possível status científico, de outro. No entanto, as posições que a acupuntura vem alcançando ao longo deste eixo, embora exerçam uma importante influência, não parecem estar determinando sua crescente percepção como uma abordagem legítima face ao adoecimento. link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701998000100005&lng=pt&nrm=iso#not8#not8
terça-feira, 29 de setembro de 2009
ponto de equilíbrio
Yin e Yang: o equilíbrio do movimento
Texto retirado do blog do Noblat: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/09/29/yin-yang-equilibrio-do-movimento-227526.asp
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
especialidades
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
filosofias

Lao-Tzu e Heráclito
paralelos entre taoísmo e filosofia grega
por Aláya Dullius
“Não se deve considerar alguns dias bons e outros maus, pois isso é ignorar que a natureza de cada dia é uma e a mesma... o Sol é novo todos os dias”. Heráclito de Éfeso
“... O Um, seu aspecto superior não é luminoso. Seu aspecto inferior não é escuro. Nascendo continuamente, não se pode nomeá-lo...” Lao-Tzu
No fim do século VII a.C. nasceu um homem cujos ensinamentos reverberaram por muitos séculos, e por diversos caminhos chegam hoje a nós. Podemos encontrar ecos dos escritos desse “velho professor” - como ficou conhecido Lao-Tzu - nos mais diversos campos de expressão humana, e especialmente, em certas filosofias.
O mundo acadêmico, ainda muito imbuído de velhos preconceitos, considera ordinariamente que a filosofia é um produto da cultura grega, e que iniciou no século VI a.C. Bornheim[1] escreve, na introdução de seu livro Os filósofos Pré-Socráticos, que não podemos ignorar que os povos vizinhos do oriente possam ter tido influência na formação da filosofia grega. Não se trata aqui de uma disputa pelo monopólio da origem da filosofia, mas antes uma reflexão sobre nossa necessidade de permitirmos vislumbrar outros horizontes a partir de perspectivas mais amplas sobre o que é filosofia. “O mundo pode ocasionalmente maravilhar-se com o extremo encanto do florescer simultâneo de várias e ricas civilizações através do mundo que, apesar de suas diferenças étnicas e culturais, guardam, em seu âmago, impressionantes similaridades com respeito a um conjunto de percepções e pensamentos. Embora se costume diferenciar as culturas do ocidente e do oriente como sendo extremamente diversas (e, em certo sentido, o são de fato), existem muito mais pontos de contato e de semelhanças entre elas do que se é comumente aceito, em especial no que diz respeito ao pensamento especulativo ou filosófico”.[2]
Se justapusermos alguns dos importantes fragmentos do pré-socrático Heráclito aos versos do Tao Te King de Lao-Tzu, talvez possamos perceber que “muitos dos temas que vão ocupar os filósofos gregos estão longe de poderem ser considerados originais”[3]. Quem sabe então passemos a considerar Lao-Tzu também um filósofo, e adiantaremos em um século a suposta “origem da filosofia”. Porém, nesse exercício de elasticidade mental, talvez nos demos conta de que tentar estabelecer uma origem temporal e geográfica para algo tão intrínseco da natureza humana, isto é, filosofar e buscar respostas, é um tanto quanto infrutífero. Não podemos julgar a filosofia a partir de nosso preconceitos culturais de hoje, já que é preciso entender as idéias dentro de seu próprio contexto de origem, e não atribuir a elas valores que nunca possuíram de fato; como por exemplo compreender que a physis grega não é nossa natureza e que Theos não é nosso Deus judaico-cristão.
Para o chinês Lao-Tzu natureza também tinha um significado muito mais amplo do que o entendemos hoje no mundo ocidental. E se Heráclito de Éfeso -- nascido no que hoje é a Turquia, menos de um século após o surgimento do Taoísmo -- bebeu dessas fontes taoístas e foi por elas influenciado; ou a partir de suas próprias reflexões chegou a semelhantes conclusões; pouco importa. De ambas as formas é interessante observar como essa sabedoria reverbera nas mais diversas épocas e regiões e permeia a filosofia. É surpreendente que as similitudes entre as visões de mundo destes dois filósofos não sejam comumente reconhecidas.
Algumas das idéias básicas que podemos extrair dos poucos fragmentos gregos que restaram de Heráclito demonstram que ele falava de uma unidade fundamental de todas as coisas, e que todas as coisas estão em movimento, movimento este que se processa através da harmonia de contrários. Da mesma forma Lao-Tzu possuía “uma percepção orgânica e holística do mundo, visto como uma manifestação dinâmica de uma realidade profunda, transcendente e implícita que dá origem a tudo o que existe, e cuja principal característica, sua única constante, é exatamente a contínua transformação das coisas com vistas à renovação e ao equilíbrio dinâmico de tudo o que há”.[4]
Talvez uma das mais conhecidas imagens criadas por Heráclito que ilustrem a questão do devir é a questão do rio: “Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas... Entramos e não entramos nos mesmos rios; somos e não somos... Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira”[5]. Essa ênfase na mudança continua, o “tudo flui” tão presente em Heráclito, possui “uma imagem muito semelhante à idéia chinesa do Tao que se manifesta na interação cíclica do yin e do yang”[6]. Nas palavras de Lao-Tzu “O Tao flui sem cessar”[7].
Tanto Heráclito como Lao-Tzu consideram os opostos como pólos de uma mesma interação dinâmica. O chinês afirma “se todos reconhecem o bem como bem, deste modo já se pressupõe o mal. O antes e o depois se seguem mutuamente”. Podemos dizer que yin e yang são energias complementares e que não existem uma sem a outra, pois o conceito sobre algo depende de um oposto que possa ser comparado. Também Heráclito vai encontrar uma unidade nessa dualidade: “Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, e de todas as coisas, um, e de um, todas as coisas”.
Mais interessante ainda fica comparar a passagem de Lao-Tzu: “que diferença existe entre o ‘bem’ e o ‘mal’?... todas as coisas, por mais diversas que sejam, retornam à sua raiz”, com Heráclito: “Bem e mal são uma e a mesma coisa. O caminho para baixo e o caminho para cima é um e o mesmo”. Novamente é a compreensão de que os conceitos só existem quando em relação à outra coisa, e que, interligados em um movimento constante, formam a unicidade, ou o Tao.
O símbolo a que chamamos Tao é um circulo que mostra o movimento de duas energias (yin e yang, preto e branco), cada uma contendo em si a semente da outra. No Tao Te King é dito que “no movimento, o bem se manifesta na oportunidade de ação”. O Filósofo grego também considera o movimento algo muito importante, chegando a dizer que “movendo-se, descansa”. Ainda por cima ele alude ao símbolo de uma circunferência: “Na circunferência, o princípio e o fim se confundem”.
Tradicionalmente se relaciona o yin com a noite, o inverno, o repouso, e o yang com seu oposto de movimento, dia, calor etc. Para Heráclito a ‘divindade’ é “dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Toma formas variadas, assim como o fogo quando misturado com essências. O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam no fogo”.
E a partir disso retiramos outra idéia importante para o filósofo grego: o fogo que a tudo transforma. Mas não é uma referência ao fogo físico, mas a um Fogo-Logos, um “fogo-chi” que transforma e dá vida às coisas. E do fogo surgem os elementos, que geram um ao outros, assim como no taoísmo. Heráclito diz: “O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a da água... O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido”. Taoísmo? Medicina Chinesa? Não... filosofia grega!
E se pensas estar lendo taoísmo ao se deparar com a seguinte sentença: “Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”, então tenha certeza, Heráclito de Éfeso foi um tanto quanto taoísta. E se “o Tao que pode ser pronunciado não é o Tao eterno” (Lao-Tzu), ou se os homens jamais compreenderão o Logos, se “mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.” (Heráclito), então, aproveitando outra deixa do Tao Te King “realizada a obra, é hora de se afastar”.
[1] BORHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix: 1993.
[2] GUIMARÃES, Carlos. A. F. Lao-Tse é o Taoísmo.
[3] CAPRA, Fritjof - O Tao da Física. São Paulo, Editora Cultrix, 1993
[4] GUIMARÃES, Carlos. A. F. Lao-Tse é o Taoísmo.
[5] BORHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo, Cultrix: 1993.
[6] CAPRA, Fritjof - O Tao da Física. São Paulo, Editora Cultrix, 1993
[7] LAO-TZU. Tao-Te King. São Paulo, Pensamento, 1995.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
arte

O grande desafio dos artistas é aniquilar o equilíbrio estático em suas pinturas através de oposições (contrastes) contínuas dentre as maneiras de expressão. É absolutamente natural os seres humanos buscarem um equilíbrio estático. Esse equilíbrio, evidentemente, é necessário para a existência no tempo. Mas a vitalidade na sucessão contínua do tempo sempre destrói esse equilíbrio.” [1]
Piet Mondrian[2]
Piet Mondrian via na arte uma maneira de expressar sua concepção sobre a vida. Vida em constante movimento, onde dualidades/oposições interagem num equilíbrio dinâmico. Em suas obras, Mondrian fez uso das linhas horizontal e vertical como expressão de opostos. Segmentos coloridos e não-coloridos de suas telas transmitem a mesma idéia de oposição (vermelho-quente / azul-frio). A linha vertical representaria o masculino, o mental/espiritual; a linha horizontal (alinhada com a terra), o feminino e o material. Luz e não-luz é outra das dicotomias presentes. As dualidades não são estanques. As linhas vertical e horizontal formam ângulos de noventa graus, sugerindo que os opostos se encontram. As linhas e seus encontros (interseções) conduzem o observador à seguinte pergunta: o que é “fundo”, o que é “figura”? Tanto as linhas quanto as partes coloridas e não-coloridas poderiam ser, simultaneamente, “figura” e “fundo”, situadas em um mesmo plano. A imagem pode ser vista, então, como uma totalidade. Ao olhar para as obras de Mondrian, repare: você enxerga as grades ou os compartimentos coloridos e não-coloridos?
É perceptível a intenção do artista de dispor os elementos de sua obra como um “continuum” de cores, luminosidade, traçados e interseções, de dispô-los como possibilidades de gradações. Ao mesmo tempo, também ao fazer uso de intervalos desiguais entre as linhas cria um visual de ritmo (como
Mondrian, Dao De Jing / Pensamento Chinês e a Medicina Chinesa
A concepção de equilíbrio dinâmico de Mondrian, com o“precário” equilíbrio entre forças opostas, variáveis e mutantes, sua concepção de vida e arte parecem incrivelmente alinhadas com as idéias de Dao De Jing (base da Medicina Chinesa). Na observação e análise do mundo, os chineses já haviam compreendido os princípios Yin e Yang como polaridades do universo – opostos, mas também complementares, interdependentes, que se consomem mutuamente e podem transformar-se em seu oposto. Yin e Yang interagem consoante o ritmo cíclico da Natureza, evidenciando diversos momentos/movimentos de um mesmo processo, de um mesmo todo. São movimentos incessantes, num contínuo fluxo, num “continuum” de transformações. Transformação e mudança são características essenciais da natureza e dos processos vivos. Entre Yin e Yang encontram-se toda a diversidade possível, as infinitas possibilidades. As dualidades são aspectos de uma mesma coisa: o uno dividido em dois, depois em muitas e infinitas partes.
Dessa forma, para a Medicina Chinesa, a saúde e a doença podem ser aspectos de um mesmo processo. Processo num equilíbrio dinâmico, com flutuações constantes, possibilidades diversas, e que portanto necessita constantemente de ajustes.
Como seres vivos parte da natureza e do universo buscamos a harmonia, o equilíbrio, que, conforme já mencionado, não é estático, mas dinâmico. Estamos em constante movimento, e constantemente
A Medicina Chinesa busca ativar os mecanismos auto-regulatórios naturais do próprio corpo humano, reduzindo a necessidade de ajustes muito grandes e excessivamente drásticos, mesmo com os movimentos e as mudanças. O equilíbrio dinâmico aprecia a ação espontânea segundo o Dao.
Kelly Chung
trabalho produzido para a disciplina Fundamentos do Pensamento Oriental, para o curso de formação profissional em Acupuntura, da Escola Nacional de Acupuntura.
Referências
- Capra, Fritjof, O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, 1982.
- D’Agostini, Luiz Renato e Cunha, Ana Paula Pereira, Ambiente, Editora Garamond, Rio de Janeiro, 2007.
- Kinsella, John, “Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, in: Salt Magazine, http://www.saltpublishing.com/saltmagazine/issues/01/text/Brennan_Michael_02.htm.
- Kruger, Runette, Art in the Fourth Dimension: Giving Form to Form – The Abstract Paintings of Piet Mondrian, http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4351.pdf.
- Lao Tsé, O Livro do Caminho Perfeito: Tao Té Ching, tradução e adaptação de Murillo Nunes de Azevedo, Editora Pensamento, São Paulo.
- Lao Tse, Tao Te Ching: O Livro do Caminho e da Virtude, tradução de Wu Juh Cherng, http://www.taoismo.org.br.
- The Free Library, Piet Mondrian: tableau with large red plane, blue, black, light green and greyish blue, 1921, http://www.thefreelibrary.com/Piet+Mondrian:+tableau+with+large+red+plane,+blue,+black,+light+green...-a0155404638.]
[1] Livre tradução de citação de Piet Mondrian, no artigo “Pure Work: Mallarmé, Mondrian and Adamson”, John Kinsella, Salt Magazine, http://www.saltpublishing.com/saltmagazine/issues/01/text/Brennan_Michael_02.htm.
[2] Piet Mondrian (1872-1944)- Pintor Holandês, no início de sua vida, recebeu grande influência do Calvinismo, com uma educação muito rígida (pai era pastor). Em 1914 associa-se ao movimento Neoplástico e por volta de 1920, chega ao estágio de pura abstração.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
justiça seja feita
domingo, 26 de julho de 2009
mutações
I CHING: O Livro das Mutações
Todos os elementos da natureza estão em permanente estado de combinação, interação, mutação, em busca de um equilíbrio dinâmico e do estado natural das coisas. Ao observarmos esse ponto de vista, percebemos que existe uma ordem, um sentido que rege todos esses arranjos, combinações e interações. Este sentido subjacente a todas as coisas foi chamado TAO pelos sábios da antiguidade chinesa.
Citando um exemplo bem simples, podemos dizer que cada estação do ano corresponde a um arranjo da natureza, tornando mais propícia a vida de determinadas plantas e animais e mais propícias determinadas ações do homem. Assim, o TAO rege também os comportamentos, as virtudes e as ações humanas, de modo que a sabedoria residiria em conseguir apreender a ordem, o sentido vigente em determinada época ou momento e viver em harmonia com ele.
Uma determinada virtude, um valor ético ou mesmo um governante perde sua legitimidade quando deixa de estar em sintonia com a totalidade, com o arranjo, o sentido (TAO) que rege aquele determinado momento. Pode haver o momento da virtude tolerante, o momento da virtude guerreira, o momento da sabedoria e da astúcia, o momento de unir e o de separar.
O TAO nos incita a penetrar e a fundir com a totalidade, mas isso não é possível apenas com o uso do nosso lado racional, é necessário dissolver nosso próprio eu na totalidade e alcançar estados de consciência (ou de inconsciência) por meio dos quais o eu e a natureza se tornem juntos um contínuo de existência, energia e percepção.
Aqui entra o Livro das Mutações ( I Ching ): um tratado científico e filosófico através do qual homem tentou materializar em símbolos o sistema natural da vida, assumindo a necessidade de entender e tentar harmonizar-se com tudo que existe ao seu redor. O I Ching é como se fosse um código para a compreensão dos fenômenos da vida dentro dos ciclos de transmutação nos quais estamos inseridos. Um código que, quando compreendido corretamente através do aprofundamento de nossas vivências em sua sabedoria, nos permite estar em harmonia com todos os processos de mutação de nossas vidas. Algo como encontrar o caminho da menor resistência aprendendo a fluir cada vez mais a favor da corrente.
É um oráculo que representa o presente - e os movimentos que regem o presente - sem considerar uma equação linear de causa e efeito e sim a sincronicidade entre acontecimentos. Nas palavras do sábio (o próprio I Ching): “a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si”. A importância crucial desse livro reside em seu potencial para servir de ponte entre nós e a ordem natural das coisas; para entendê-lo será preciso assumir que suas palavras emergem de nossa interação com o sábio que há em nós mesmos.
Tatiana é aluna do curso de formação profissional em Acupuntura, da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
acupuntura no ocidente
A Integração dos Dois Sistemas no Ocidente
Guido Palmeira
A acupuntura é apenas uma das técnicas terapêuticas que compõem um conjunto de saberes e procedimentos culturalmente constituídos, e dos quais não pode ser dissociada. Além das agulhas, a medicina tradicional utiliza ervas, massagens, exercícios físicos, dietas alimentares, e prescreve normas higiênicas de conduta. Sua lógica é a mesma que orientou toda a vida social da China, no período em que foi desenvolvida: o calendário agrícola, as festas coletivas, os princípios de comportamento social, as regras de etiqueta no trato com as autoridades, a religião, a música, a arquitetura... Os princípios teóricos a partir dos quais as doenças são entendidas, classificadas e tratadas são os mesmos que servem para entender, classificar e lidar com as coisas do mundo', a natureza, o espaço e o tempo. (A este respeito ver: Granet, 1968).
Pretender que a eficácia de um saber que, segundo Cai Jing Feng, "tem controlado as maiores epidemias de doenças infecciosas na história da China", deva-se a que a introdução de agulhas, em determinados pontos, tenha como conseqüência a liberação de mediadores bioquímicos que interferem no fenômeno da dor; e que o sucesso obtido pelos chineses com a acupuntura durante dois mil e quinhentos anos de desenvolvimento seja fruto apenas da acumulação de observações empíricas, é fechar os olhos ao saber tradicional, é descaracterizá-lo, é optar por uma 'cegueira etnocêntrica'.
Embora os autores orientais considerem que a política de integração entre os dois sistemas, praticada na China desde 1949, tenha permitido um grande desenvolvimento não só na atenção à saúde do povo chinês, como da própria medicina tradicional — e o surgimento das técnicas de anestesia cirúrgica com acupuntura nos anos cinqüenta testemunha que têm razão —, a recíproca pode não ser verdadeira.
Nos últimos quarenta anos, o oriente desenvolveu novas técnicas terapêuticas, associando o saber milenar com o saber e a técnica ocidentais. Ao ocidente, que não domina o saber tradicional, — ao contrário, o nega — restou a pobre e limitada perspectiva de procurar esclarecer, com seus próprios recursos teóricos, os mecanismos de ação e os efeitos de uma técnica oriental isolada em uma situação específica, a dor. No ocidente, a procura da cientificidade da acupuntura, ao contrário de esclarecer (ou legitimar) o saber que lhe dá sentido, tem sido a busca da confirmação da hegemonia da ciência médica, a possibilidade de fazê-la capaz de explicar os efeitos até então enigmáticos das agulhas.
Se o crescimento da aceitação da acupuntura no ocidente pode ser o reflexo da crise da medicina científica, e se a crise da medicina ocidental se identifica com a crise de seu paradigma positivista; então os estudos 'científicos' da acupuntura pouco poderão contribuir para a superação dessa crise, enquanto insistirem em negar a possibilidade de uma medicina, de uma ciência de dois mil e quinhentos anos, que tem a sua lógica própria, diferente daquela da ciência ocidental.
É possível (quiçá provável) que a maior colaboração que o oriente possa trazer a medicina ocidental não esteja na sua técnica, mas no seu saber, nos conceitos a respeito da natureza e da causalidade das doenças, na sua visão holística do ser humano, na valorização da tendência à autocura inerente ao organismo, no significado do "equilíbrio" que se busca com a terapia.
No entanto, para se ter acesso ao saber tradicional, será preciso compreender os seus princípios, poder perceber claramente o Yin e o Yang no mundo, e a possibilidade do Tao (3); será preciso reconhecer na natureza, no céu e na terra, as seis energias e os cinco elementos, aprender a distinguir, no exame do paciente, onde está o frio e onde está o calor, onde estão as insuficiências e onde estão os excessos.
Para se ter acesso ao saber tradicional, será preciso admitir a possibilidade de que estas categorias possam se organizar em um sistema coerente cuja lógica, que orientou tanto a ordenação biológica quanto a ordenação social da China, durante a maior parte dos últimos vinte e cinco séculos, deve ser apreendida não só pelo estudo da medicina, como pela compreensão da religião, da filosofia, dos costumes, enfim, da história e da cultura da civilização chinesa.
Guido Palmeira é Pesquisador do DEMQS/ Ensp/ Fiocruz
Trecho do estudo "Acupuntura no Ocidente" publicado no Cadernos de Saúde Pública. Para leitura completa acessar: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X1990000200002&script=sci_arttext
domingo, 12 de julho de 2009
A Carta

Carta da Transdisciplinaridade, redigida em 1994 por
Basarab Nicolescu (Físico romeno), Edgar Morin
(Sociólogo e Pensador francês) e Lima de Freitas
(Artista e escritor português).
Pedro Ivo
Considerando que a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é uma ciência milenar documentada em extensa literatura, há mais de 2.000 anos, e que sua eficácia como sistema terapêutico independente e auto-suficiente se mantém ao longo desses milênios e segue cada vez mais viva e atual, justamente por seu caráter atemporal;
Considerando que seu Sistema de Padrões e Correspondências entre os seres humanos e as forças da natureza e sua visão da continuidade entre corpo, mente e espírito como uma única, e indissociável, entidade integrada, continuam encantando a população em geral independentemente, ou apesar, das comprovações científicas parciais (às vezes tendenciosas) e pautadas em paradigmas já ultrapassados;
Considerando que a MTC é um Sistema Terapêutico completo que contempla o Ser Humano em sua integralidade e conta com uma gama de recursos terapêuticos que auxiliam os indivíduos em seu equilíbrio dinâmico e ativam o potencial de cada um de se auto-regular, podendo ser considerada, portanto, um Saber Tradicional com uma racionalidade própria e com grande potencial para satisfazer as necessidades do Estado de lançar-mão de práticas preventivas reais e de baixo custo, que visem mais amplamente a saúde e não somente a doença;
Considerando que as práticas da MTC – a Acupuntura, o Tui Na (Massoterapia Chinesa), a moxabustão, as práticas meditativas corporais (Tai Chi Chuan, Chi Kung e Lian Kung), a Fitoterapia (na farmacopéia chinesa), a Alimentação Terapêutica Chinesa, o Feng Shui, etc – estão todas apoiadas em uma racionalidade própria que tem como base o pensamento taoísta;
Considerando que o pensamento taoísta e a consolidação do Saber da MTC (Acupuntura) no ocidente estão em comunhão com o Saber Complexo que, segundo Edgar Morin, “requer um pensamento que capte relações, interrelações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas, que respeite a diversidade, ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes”;
Considerando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a adoção, por parte de seus países membros, da MTC (Acupuntura) como prática independente em seus serviços públicos de saúde e criou diretrizes para a capacitação plena de Acupunturistas autônomos;
Considerando que desde 1981 existem cursos técnicos de formação profissional em Acupuntura reconhecidos pelo MEC, que não guardam nenhuma relação de subordinação com nenhuma outra profissão da saúde, sendo pautados em modelos acadêmicos de ensino e que somente alguns anos depois foi reconhecida a “especialidade” em Acupuntura pelos Fisioterapeutas e, somente em 1995, pelo coletivo Médico;
Considerando que nenhum dos cursos universitários da área de saúde hoje existentes no país contempla, em suas disciplinas de base, nem mesmo os fundamentos mais elementares da MTC, sendo algumas vezes orientados por princípios diametralmente opostos;
Considerando que grande parte dos profissionais da área de saúde que hoje lutam pela exclusividade da Acupuntura como “especialidade” obtiveram seus conhecimentos a partir de Acupunturistas Tradicionais, não médicos e na maioria das vezes também sem nenhum outro bacharelado da saúde ocidental;
Considerando que os Conselhos da área de saúde, que hoje reclamam a Acupuntura como especialidade, poucos anos atrás negavam, veementemente, sua eficácia e taxavam seus praticantes de curandeiros e charlatões;
Considerando ainda que a formatação da Acupuntura Científica parece mais se adequar a uma necessidade ou “Vontade de Verdade” (nas palavras de Michel Foucault) da Ciência Oficial do que de uma livre busca científica, onde a própria Ciência Oficial se coloca no papel de juiz das outras Ciências e promove uma racionalização que, nas palavras de Edgar Morin, “[...] consiste em querer encerrar a realidade num sistema coerente. E tudo o que, na realidade, contradiz este sistema coerente é desviado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência”;
Considerando também que o artigo primeiro da Carta supracitada proclama que “qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolvê-lo nas estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar”;
Considerando tudo o que precede, venho propor a união de todos os que compartilham este Espírito Transdisciplinar em prol da consolidação da Medicina Tradicional Chinesa, sendo a Acupuntura sua ferramenta mais difundida, como um Sistema Único e devidamente regulamentado, livre das pressões corporativas e mercadológicas e em comunhão com toda a tendência mundial de expansão das práticas e dos Saberes Tradicionais e Naturais de forma independente e autônoma.
Bibliografia:
FOUCAULT, Michel. A Ordem do discurso. São Paulo: Loyola,1996.
MORIN, Edgar. Sobre a Reforma Universitária. Em: Educação e complexidade: Os Sete
Saberes, 11-25. São Paulo: Cortez Editores, 2002.
NICOLESCU, Basarab. Fundamentos Metodológicos do Diálogo Transcultural. Em: Edgard
de Assis & Terezinha Mendonça (orgs), Ensaios de Complexidade 2, 217-232. Porto alegre:
Editora Sulina, 2003.
FREITAS, Lima de; MORIN, Edgar; NICOLESCU, Basarab. Carta da Transdisciplinaridade.
Convento da Arrábida, 6 de novembro de 1994.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
o desafio a enfrentar
terça-feira, 26 de maio de 2009
valorização a posteriori
O Reconhecimento Autêntico da Acupuntura
“A inteligência parcelar, compartimentada, mecânica, disjuntiva, reducionista, quebra o complexo do mundo, produz fragmentos, fraciona os problemas, separa o que é ligado, unidimensionaliza o multidimensional.” Edgar Morin
Pedro Ivo
Neste momento de encontros e desencontros entre as categorias profissionais envolvidas no processo de regulamentação da Acupuntura – Medicina Tradicional Chinesa, escrevo este artigo com a intenção de aprofundar a discussão e de fazer chegar às pessoas interessadas nesse processo uma das versões possíveis. Pretendo, com o presente texto, demonstrar como é necessária a discussão e, para tanto, faço minhas as palavras do filósofo peruano Fidel Tubino Arias-Schreiber para enfatizar a necessidade de uma valorização do Saber da Medicina Chinesa em sua plenitude para fazer emergir um reconhecimento autêntico, fruto da experiência do encontro com essa forma peculiar de entender a saúde e a doença, tão diferente da perpetuada pelas profissões da Área de Saúde ocidentais. Arias-Schreiber, em seu “Interculturalizando o Multiculturalismo”, profere o seguinte:
“O reconhecimento é mais que a tolerância positiva. Reconhecer o outro em sua alteridade radical é mais que respeitar suas diferenças e percebê-lo a partir de sua percepção do mundo. Reconhecer o Outro é respeitar sua autonomia, é percebê-lo como valioso. Mas a valorização a priori do outro é um falso reconhecimento. [...] O verdadeiro reconhecimento é a posteriori. Nasce da experiência do encontro com o Outro. Mas somente é possível em relações autenticamente simétricas e livres de coação. O verdadeiro reconhecimento pressupõe uma atitude reflexiva em relação a nós mesmos, uma objetivação de nossa maneira de entender e valorizar o mundo.[...] Permite-nos liberar do etnocentrismo acrítico que impede a abertura ao outro e a valorização das diferenças. A valorização a posteriori do diferente é o reconhecimento autêntico.” (Arias-Schreiber, 2005:189-190, tradução livre)
Nessa direção, tentarei esclarecer, ainda que de maneira breve, alguns pontos relevantes da discussão que circunda os Projetos de Lei para regulamentação da Acupuntura-MTC, em tramitação no Congresso Nacional. Em primeiro lugar, defendo a autonomia da Acupuntura-MTC – junto com muitos profissionais conhecedores dessa ciência e isentos de interesses escusos – pela sua evidente coerência teórica, pela sua eficácia prática comprovada (até mesmo por uma metodologia cartesiana limitada) e pela independência de seus ensinamentos, maturados durante milênios e amplamente documentados em vasta literatura. Também pela sintonia desse Saber com a vanguarda da Ciência ocidental, a qual corrobora o caráter científico da Medicina Chinesa, com sua racionalidade própria, independente das tentativas etnocêntricas e interesseiras de fazê-la inteligível dentro dos marcos teóricos predeterminados pelas “biociências”. Edgar Morin, por exemplo, lembra-nos de que há “na história da filosofia ocidental e oriental, numerosos elementos e premissas de um pensamento da complexidade. Desde a Antigüidade, o pensamento chinês funda-se sobre a relação dialógica (complementar e antagônica) entre o yin e o yang e, segundo Lao Tsé, a união dos contrários caracteriza a realidade” (Morin, 2000). O próprio texto da Portaria
Um segundo ponto, não menos importante, diz respeito a esta tentativa de reduzir o Saber Complexo da Acupuntura-MTC a uma técnica singela de combate à dor (única explicação aceita para seus mecanismos de ação, segundo os ditames ocidentais – ainda que de maneira inespecífica, como se os pontos de acupuntura pudessem ser escolhidos no tratamento sem um critério meticuloso, muito se distanciando da realidade terapêutica chinesa) ou ao serviço das diferentes profissões que reconhecem, dentro de seus conselhos, a Acupuntura como “especialidade”, quando é sabido que existe por trás desta “técnica” um arsenal teórico independente e autônomo, de caráter transdisciplinar - por contemplar o ser humano em toda sua complexidade, não separando corpo-mente-espírito, e com uma rede de informações coesas que corroboram dita inseparabilidade.
Já sobre as especialidades em Acupuntura - uma aberração, a partir do ponto de vista da Medicina Chinesa, a qual não pode conceber o estudo do ser de maneira fragmentada - muitos são os argumentos que desmontam esta possibilidade: 1. como já comentado em outras oportunidades, a inclusão da especialidade em acupuntura, por diferentes conselhos, somente vêm a confirmar a óbvia grandiosidade da Acupuntura-MTC, a qual deveria ser, portanto, uma profissão independente; 2. o aprendizado da MTC deve passar por uma nova e exaustiva formação, independente das já existentes, que passa pelo desenvolvimento de uma nova percepção sobre a vida e seus mecanismos; 3. os conselhos não deveriam aceitar a especialidade em Acupuntura por se tratar de uma “técnica” sem validade científica, segundo os critérios metodológicos dos próprios conselhos; 4. os mecanismos de ação da acupuntura são desconhecidos pela ciência convencional (portanto não-científicos) e esta nova certeza científica (que ocupa o lugar do ceticismo e da desconfiança que pairavam sobre a acupuntura nas últimas décadas) parece forjada para atender aos anseios dos grupos interessados. Sobre os dois últimos tópicos, recorro ao neurofisiologista Renato Sabbatini, pesquisador da UNICAMP:
“... a conclusão é a seguinte: os resultados de pesquisas médicas sobre a acupuntura são contraditórios, e dependem muito da qualidade do estudo e da tendência pessoal dos pesquisadores. Em geral, estudos metodológicos mais bem feitos mostram que a acupuntura não tem nenhum efeito superior ao placebo em dores crônicas das costas, cessação de tabagismo, perda de peso e apetite e doenças reumáticas. Parecem ter algum efeito em dores agudas de dente, dores de cabeça e dores causadas por disfunções da articulação temporo-mandibular, mas não são efeitos fortes (poderiam ser causados por outras coisas além das alegadas pelas bases teóricas alegadas para a acupuntura).” (Sabbatini, 2001)
Ainda nesse campo, acho importante ressaltar a ambigüidade que nasce da necessidade de comprovação científica da acupuntura, a partir do prisma ocidental, para que seja aceita como especialidade. Por um lado, os mecanismos de analgesia são amplamente divulgados como dados científicos (ainda que processados de maneira inespecífica, ou seja, qualquer ponto poderia gerar tal resposta no organismo) e, por outro, uma infinidade de indicações é celebrada, sem qualquer comprovação aceita (como no trecho do artigo supracitado). Ainda neste tópico, para os iniciados em Acupuntura-MTC, por outro lado, fica evidente a coerência de seus postulados e a especificidade de suas condutas, direcionadas a partir de uma metodologia de diagnóstico complexa, na busca de Padrões de Desarmonia dinâmicos (com a leitura da interação entre os vários sinais e sintomas que se apresentam em um momento dado) e na consequente eleição de combinações de pontos criteriosamente escolhidas dentro da lógica própria da MTC.
Já a caminho da finalização do presente artigo, - com lástima, pela quantidade de informações que ficam de fora - saliento que o importante em todas estas considerações é que fique aberto o diálogo democrático e que esse grandioso Saber seja realmente levado a sério, sem as amarras das certezas científicas pré-moldadas e com as armas do verdadeiro espírito investigativo – tão caro ao cientista da Medicina Chinesa, ou seja, às pessoas comuns atentas às suas mudanças e oscilações, às demandas pessoais, às suas interações com o meio, aos alimentos e suas adequações e com a inata espiritualidade de cada um, em uma rica dança transdisciplinar. Assim sendo, deixo a esperança de que seja efetivada uma aproximação verdadeira de nossos profissionais da Saúde e de nossos legisladores com a Ciência da Acupuntura-MTC, essa rica fonte para o entendimento da vida e de seus sutis mecanismos, para que, deste modo, nasça o respeito por sua autonomia e a devida valorização de seus nobres fundamentos.
Pedro Ivo é professor da Escola Nacional de Acupuntura - ENAc
ARIAS-SCHREIBER, Fidel Tubino. Interculturalizando el Multiculturalismo. Lima: Fundación CIDOB, 2005.
MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: Francisco Menezes Martins e Juremir Machado da Silva (org), Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulina/Edipucrs. 2000.
SABBATINI, Renato. Acupuntura funciona? Correio Popular, Campinas, (
diretrizes da OMS para capacitação de acupunturistas
o corpo taoista
livros
“O mundo valoriza os livros, e acha que, assim fazendo, está valorizando o tao. Mas os livros apenas contêm palavras. Apesar disso, algo mais existe que valoriza os livros. Não apenas as palavras, nem o pensamento das palavras, mas sim algo dentro do pensamento, balançando-se numa certa direção que as palavras não podem aprender. Mas são as próprias palavras que o mundo valoriza quando as transmite aos livros: e, embora o mundo as valorize, estas palavras são inúteis enquanto aquilo que lhes der valor não é honrado”.
Chuang Tsé




